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O Cabra que Matou as Cabras - 21/10/2022

Espero que você tenha no mínimo 18 anos, porque, caso contrário, você não vai ter memória de nada: nós vamos voltar ao ano de 2004.


Estou eu na porta do teatro Goiânia, rodeado por um oceano populacional como eu não tinha visto e nem esperava. Era gente que tomava conta daquela praça, das escadas, da porta e com certa impaciência esperava para entrar naquele teatro. Não havia fila. A entrada seria na base do cada um por si. Quando vi um casal abraçadinho, vislumbrei minha oportunidade: fiquei bem atrás deles que abriam o caminho e eu podia segui-los sem que a multidão impedisse minha marcha. No foyer do teatro fomos recebidos por, beeeé, cabras, beeeé, andando pelo espaço, cumprimentando, balindo. E um sujeito com uma moringa. Ele abria a moringa, vertia num copinho algum líquido estranho, oferecia a alguém da plateia, que bebia, fazia careta e passava o copo de volta. Quando chegou minha vez, descobri que era pinga. Logo, entramos para o teatro - eu, usando a mesma técnica de antes, consegui ficar muito bem apoltronado. O teatro foi lotando. Lotando. Lotando tanto que teve gente que ficou sentada nos corredores da plateia. Muita gente. Depois de todos acomodados, seja no chão, seja nas suas poltronas começou um dos melhores espetáculos que esses meus olhos já viram em sua vida. Pensei: foi a pinga que me deram porque uma peça não pode ser tão boa assim.


Vamos deixar as alegrias que existiam em 2004 - um governo que prestava, por exemplo - e voltemos a 2022. Nesses 18 anos, eu assisti a O Cabra que Matou as Cabras, da Cia Nu escuro, 13 vezes e aquela pinga de 2004 ainda está fazendo efeito, pois continua sendo um dos melhores espetáculos que esses meus olhos já viram em sua vida. Na última sexta, resolvi colocar a pinga à prova e fui assistir pela décima quarta vez. Ô pinga boa aquela.



Um pobre pastorzinho - de cabras, não de igreja; se fosse de igreja não seria pobre - é acusado de matar as cabras de seu patrão, um comerciante sovina. Um advogado malandro vai defendê-lo e acaba sendo passado para trás pelo mesmo pastorzinho. Em linhas bem gerais essa é a trama da Farsa do Advogado Pathelin, um texto de autor desconhecido, escrito na França no século XV. Sim, tem quinhentos anos que essa peça foi escrita e montada pela primeira vez. O que nós chamamos hoje de Brasil ainda era um bom pedaço de paraíso, sem a colonização, e já tinha gente rindo do Pathelin. Como, leitora amiga, como posso eu rir das mesmas coisas 500 anos depois? Não é feitiçaria, é tecnologia!


Pra começo de conversa, o texto em si tem situações já divinamente engraçadas. Me vem a direção do Hélio Fróes e não só realça as situações mas cria outras igualmente divertidas. O texto sendo de cultura popular, fala muito aos nossos corações brasileiros, ainda mais a este meu coração goiano - lá no interior e onde eu vim, todo mundo adora uma história de trapaça e o Pathelin é o mestre da trapaça. A direção não apenas segue essa linha popular mas ainda a atravessa com o grotesco, a inversão, o alto e o baixo reunidos. Com um caminho e uma direção assim só poderíamos ir para um lugar maravilhoso.


Alguns acréscimos que foram feitos ao texto original são tão perfeitos que eu sinto raiva de não ter sido eu quem criou: a subtrama que aproveita melhor a personagem da Guilhermina, por exemplo. Ou o coral de cabras cantoras que aparece logo no início - eu fico rindo só de lembrar. Os cordéis de casos escabrosos… E o genial número de adivinhação em que se prova que com um bom mestre e guia você pode tudo. Até telepatia!



A riqueza musical desse espetáculo é outra coisa que me faz sacolejar o corpo todo. Veja lá, vocês que aparecem músicas consagradas, paródias de músicas conhecidas e até uma paródia genial de uma música encontrada num filme italiano dos anos 60, pode uma maravilha dessas? E a música é executada, o quê? Isso mesmo, ao vivo pelos atores o que torna tudo mais visceral. Ainda estou esperando que eles gravem um CD para que eu possa finalmente para de cantar as músicas só na minha cabeça.


O espetáculo passou por diversas transformações nas 14 encarnações que eu conheci dele. O cenário mudou um tanto bom; alguns figurinos mudaram um pouco, sem descaracterizarem-se jamais; se a apresentação foi na rua, a iluminação era só a natural, se no teatro havia iluminação própria, sempre muito rica e engrandecedora do todo.


O que nunca mudou foi a qualidade das interpretações. Eu sempre assisti a esse mesmo elenco, fazendo uma festa em cena. Alguma marcação que muda, algum caco que surge e continua, algum improviso que num dia apareceu e não volta nunca mais - nunca vou me esquecer de uma das apresentações em que o Teobaldo, o pastorzinho, foi chamado de “fiote de Lenny Kravitz” - e lá estão as personagens inteiras, maravilhosas, hilárias, todas malandras. Nunca vi um povo pra gostar de passar os outros pra trás como esse povim do Cabra. Aliás, já vi sim: na seção de política dos nossos meios de comunicação sempre aparecem uns dois, três… setenta e oito.



Só posso terminar esse texto dizendo que me dá um nó no bucho pensar que você ainda não viu O Cabra. Você tem que ver. É hilário, é atual, é bom mais de 14 vezes. Confia. E que nos fundilhos uma tora lhe seja socada, se não credes em mim como na Bíblia sagrada.

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