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9º Festival de Cenas Curtas da Feteg - Parte I

Atualizado: 29 de nov. de 2022

Federação segue com ações de ocupação do espaço, oferecendo oportunidades para quem faz e para quem quer assistir


A Federação de Teatro de Goiás (FETEG) promoveu neste mês de novembro a nona edição do Festival de Cenas Curtas da Feteg, com o tema "o mundo que temos, o mundo que queremos". A edição anterior, no primeiro semestre, se deu ainda no formato online, sem a presença do público, o qual compareceu agora de forma satisfatória durante as mais de 6 horas de duração do festival. Diferentemente da divulgação inicial, o festival aconteceu todo no mesmo dia, em três blocos. Apresentaram-se quase 30 cenas curtas selecionadas. O Festival de Cenas Curtas tem caráter competitivo e as 10 melhores cenas, segundo avaliação do júri, foram premiadas e serão disponibilizadas em vídeo no Youtube no canal da FETEG, que você acessa clicando aqui.


A FETEG tem se reestruturado ao longo dos anos e, a duras penas, com uma pandemia no meio do processo, tem logrado estruturar e ocupar seu espaço e movimentar a cena local. A participação crescente de profissionais e grupos consolidados em seus festivais, o atrativo e a oportunidade que representa para iniciantes, estudantes e grupos amadores, além do público, que tem marcado presença em suas ações, tudo é indicativo de que o trabalho vai por bom caminho.


No retorno ao presencial, ao fim do período de restrições sanitárias imposto pela pandemia, o cenário de paralisação da cena cultural se refletia no fato de que, por alguns meses, a FETEG era o único espaço a oferecer alguma programação teatral na cidade. Enquanto espaços consolidados técnica e institucionalmente se reorganizavam para voltar a abrir as cortinas e os grupos e artistas readequavam e retomavam seus projetos, a produção independente, que não está a mercê dos mecanismos de incentivo, é quem oferecia ao público o que assistir. Nesse cenário, há algo da precarização que sofremos com o abandono do setor a nível federal, e com o sufocamento que o direcionamento político, estético e ideologicamente orientado dos recursos provoca a nível estadual. Além ainda dos efeitos esperados da pandemia.


A qualidade técnica e estética dessa produção nova ou independente apresenta deficiências, claro, mas o movimento que se percebe é de grande importância. Ele recoloca para os artistas o sentido do desafio e tensiona o trabalho criativo em suas motivações e em suas possibilidades comunicativas. Não falamos no sentido de romantizar as dificuldades nem desmerecer a luta e a cobrança que deve ser feita sempre às esferas executivas e legislativas, mas desse lugar de privação e vilanização da classe, há de surgir novas potências artísticas, novas propostas e renovado fôlego de manifestação para que surjam, inclusive, novas formas de encarar novos problemas.


Voltando ao Festival de Cenas Curtas da FETEG, o GO Teatro assistiu a algumas das cenas, a partir do segundo bloco, e comentamos aqui esses trabalhos. Salvo algum engano, os textos seguem a ordem de apresentação das cenas. Devido ao formato do evento e à quantidade de cenas, na divulgação constam informações reduzidas. Assim, não conseguimos os nomes de todos os atores em cena, citando apenas os grupos ou artista proponente.



Carolina Maria de Jesus

A cena da Cia Amocozada é um monólogo que homenageia a escritora de Quarto de Despejo, livro-diário em que narra sua vida de mulher negra e pobre no Brasil do século XX. Especula-se que Carolina nasceu em 1914. A atriz em cena se apresenta como lavadeira, umas das muitas atividades que a escritora exerceu para sobreviver e dar de comer aos filhos até a publicação de seu livro em 1960. De fundo, um cenário de prédios com janelas iluminadas representa o urbano, mas o urbano salubre e ordenado, distante da realidade que vemos no primeiro plano, da atriz diante das duas bacias com água, esse urbano marginalizado do trabalho duro e mal pagado.


O quadro está posto, mas não ganha vida. Os elementos em cena não servem para além do retrato e as interações da atriz com os objetos estão no nível do cotidiano quando remexe a água com as mãos, sem pretensões, e no nível inicial do experimento quando põe os pés dentro e aí se abaixa sem que isso nos leve a outro estado de cena ou da personagem. A cena se desenvolve sob uma gravação de textos de Carolina, em que ela expõe a agudeza de sua inteligência e de sua visão de mundo, além de sua consciência como “cidadã negra brasileira”. É o mote para a relação que se faz entre Carolina e a própria atriz sob um aspecto de ancestralidade. Após alguns momentos de interpretação em LIBRAS, a atriz faz um reconhecimento da escritora e um paralelo com sua condição de mulher negra, mãe e professora de LIBRAS. O fim da cena tem a força da declaração, mas carece de preparação e não vem embalado pela dramaturgia deficiente. Confia-se em demasia na identidade.



Vamos a la Praia


O nome da cena me fez lembrar o espetáculo do Grupo Bastet, visto há bastante tempo, há muitos anos, no Teatro Goiânia. Aí me perguntava se teriam relação, ou se essa cena era, como parecia, uma experimentação nova, a criação de outros artistas. Descobri depois que, sim, têm relação e a cena é parte do espetáculo de mesmo nome, feita nesse caso por duas novas atrizes. É uma cena de palhaçaria, a situação dada é: duas palhaças chegando à praia e se atrapalhando com tudo, da boia à cadeirinha, além de rivalizando uma com a outra, ou melhor: uma ressentindo a outra que parece mais à vontade e relaxada, mais disposta a curtir do que a sofrer. Dinâmica de palhaços.

A cena trabalha a comicidade física, com as palhaças executando ações simples da situação, mas de forma inusual, que as levam a situações físicas absurdas. Às vezes funciona, mas quase sempre as propostas são pouco criativas. Há um trabalho vocal com o gromelô, em que a fala é substituída por sons articulados que só adquirem sentido elementar através da entonação e das ações. Uma das atrizes faz um uso engraçado do recurso, que poderia ter sido melhor utilizado em toda a cena. A proposta continha bons elementos e motes criativos para destrinchar o humor em múltiplas camadas, mas tudo carecia de organização e objetivos claros. O desenho do todo não está bem definido e a cena ganha o aspecto de uma experimentação. Vamos a la Praia ganhou o primeiro lugar na avaliação do júri, o que não nos chega à compreensão e houve polêmica por, supostamente, não abordar nenhum dos temas exigidos em edital pelo Festival.



NIQ


Dominique tem um nome que, se eu me lembrasse e o escrevesse inteiro aqui, tomaria todo o espaço do primeiro parágrafo dedicado a essa cena. Então, melhor mesmo apresentá-lo como Niq, que além de ser o diminutivo do nome original, é também herança do destrato que ele sofria quando criança, quando a avó, e os que a acompanhavam, não paravam de dizer: “esse menino não vale um níque”. Mas ele servia pra levar recado, para isso era ligeiro, e, não por menos, se tornou carteiro – função que exerce ainda hoje, depois da aposentadoria. Sua missão é fazer chegar a quem se endereçavam as centenas de cartas que nunca encontraram seu destino. Para isso ele sai lendo por onde vai (e onde lhe permitem) as cartas que tem guardadas. Vai que o destinatário escuta e se identifica!

É nessa toada que Júlio Vann se desafiou a voltar aos palcos após 12 anos. O personagem recebe do ator o carisma e o humor que lhe são próprios e que, somados à criatividade do texto e à espirituosidade do papel, fazem Niq cair nas graças do público. O cenário que o ator espalha no palco ao começo da cena compõe bem com a luz e dá o clima bucólico e meio mágico que a cena solicita e que encontram reforço na caracterização e no figurino. A sua história, a interação com o público, os causos que conta, as cartas que lê... difícil entender que tudo coube em menos de 10 minutos, mas tudo flui com tranquilidade e graça. Niq é uma aposta ganha. Em quanto Júlio vai aumentá-la?

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