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Atualizado: 8 de Ago de 2018

Depois do Corpo estreia em Goiânia, 48 anos depois de proibida pela ditadura militar.

A ACT Casa do Teatro existe desde 1994 oferecendo cursos, oficinas e produzindo espetáculos pequenos com seus integrantes e alunos. Mas 2018 tem se mostrado um ano de renovação na ACT, em que a casa apostou em projetos de formato diverso do habitual, investiu na busca de outros públicos e conseguiu ampliar seu reconhecimento na comunidade, inclusive no meio teatral. Ponto germinal dessa inflexão é o retorno de Almir de Amorim à escrita dramatúrgica, que se dá com o espetáculo Matilde e a Bala Perdida, que estreou na Semana de Dramaturgia Goiana, promovida pelo Teatro Sesi em abril. Agora, com a montagem de Depois do Corpo, temos a consolidação desse movimento de reinvenção.


A peça não é nova, foi escrita nos anos 60 durante a ditadura militar. E foi proibida. Ouvir Almir de Amorim falar desse episódio e vê-lo emocionar-se com sua retomada criativa, 40 anos depois; ou ver a Luzia Melo, diretora e sua esposa, surpresa com a persistência dos traumas que reencontrava nas falas de Matilde (em que atuava), nos mostram e nos alertam para a profundidade das feridas provocadas e para o tempo que nos foi roubado, no Teatro como em toda parte, pela violência do regime militar. Nos tempos que estamos vivendo, não há de ser por acaso a superação do trauma e o cessar do jejum de um dramaturgo que demonstra ter muito a dizer.


O sem teto D. A loucura que absorve a insanidade do mundo . Foto: divulgação.

Depois do Corpo constrói a alegoria de um encontro de classes. E embora esteja algo ultrapassado em suas concepções éticas contra o capitalismo, faz um impactante retrato da indiferença, do medo e do preconceito, sintomas de um pacto social falido cuja reparação deixa de ser tema quando superada pelos ideais de conforto e ascensão individuais. No encontro marcado entre Teles e Betinha numa praça, o adiantamento de um e o atraso do outro os obrigam, separadamente, ao contato com D, um sem teto que ali vive sua rotina de louco mendigo. Como em Matilde e a Bala Perdida, é a personagem louca, miserável e solitária que, do universo criado para si mesma, revela os abusos e as incoerências do nosso mundo civilizado.


Depois do Corpo, no entanto, muito ganha em não ser um monólogo. A peça se mantém num estilo de teatro do absurdo, mas é mais dinâmica e tem mais apelo cênico. Confere-lhe mais profundidade, por exemplo, a relativização do jogo entre opressor e oprimido, muito demarcada em Matilde. Aqui, domínio e dominador, algoz e vítima, são instâncias que se alternam entre os personagens, que trocam de mão a todo instante num jogo cênico e textual vívido e ácido. Uma riqueza dramatúrgica que Bruno Peixoto nos permite apreciar com encanto, demonstrando que merece o reconhecimento que tem. Infelizmente, nem sempre o elenco lhe acompanha e algumas partes da obra são um arrastar sem vigor em que o espectador se põe a duvidar do que vê.


O texto sobrevive a isso, e o final, com todos os atores em cena, reafirma sua força. O cenário poderia ser mais explícito para situar o espectador com antecedência. No figurino, a personagem Betinha nos parece destoar drasticamente dos demais, com vestes que em nada ajudam sua caracterização e, principalmente, não sintonizam com a virada final do espetáculo. O ponto alto de Depois do Corpo é justamente o texto de Almir de Amorim que tem vigor e dinamismo. O autor demonstra consciência cênica e dramatúrgica raramente vistas em nossos palcos. Seu retorno é mais do que bem vindo. Principalmente tendo a ACT se expandido para além do Teatro Marista e alcançado escolas e centros de cultura na periferia.

Rafael Freitas

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