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Armadilhas do Tempo (2)

Sertão Hamlet une Shakespeare a Lampião no Sertão do Cariri


Sertão Hamlet faz um jogo entre a personagem de Shakespeare e a história de Lampião, o mítico cangaceiro nordestino. Nessa mescla, o Sertão do Cariri, no Ceará, é o celeiro de onde surgem as personagens do espetáculo de Guido Campos. Edilânia, Juvêncio e uma beata de 94, quase 95 anos, são os seres de quem ouvimos as histórias de vida nesse monólogo. Não fica claro se são inventados ou inspirados em pessoas reais, dúvida que se coloca dado o caráter antropológico do processo de pesquisa. Guido esteve no Cariri, conheceu sua gente, seus costumes, um pouco de sua história.


Essa imersão produziu também a visualidade do espetáculo. Do couro das vestes e do chapéu de cangaceiro, às velas em latinhas, às rendas, aos altares coloridos. Tudo é simples, mas tratado com cuidado. Aos nossos olhos reluz bucólico e pretérito, de modo que quando surgem falas sobre o whatsapp, nossa localização temporal dá um bug. Talvez esse universo resista à invasão digital, mas as pessoas continuam fugindo com o circo e namorando na calçada?


Edilânia, Juvêncio e a beata são o melhor do espetáculo, é onde o ator demonstra seus talentos, sua sensibilidade, e onde há drama. Hamlet e Lampião são fantasmas que assombram não as personagens, mas o próprio ator. Sertão Hamlet tem a força de questionar e tensionar o trabalho da atuação. Guido tem fôlego e carisma para brincar com a exposição de si mesmo, quebrar a quarta parede, para estar presente e viver sua experiência em cena. Isso dito, essa força e despojamento não serviram, nessa apresentação, ao conjunto das coisas e à unidade do espetáculo.


Um espetáculo é um universo, que não precisa ser hermético, mas que funciona segundo as regras que ele mesmo cria. O universo criado pelo ator a partir dos objetos cênicos, manipulados com devoção, o modo como se coloca a interpretar cada personagem após delicada caracterização, o humor singelo dos modos de falar representados, tudo isso põe a rodar uma engrenagem que demanda tempo, mas que ganha em sutileza, e quando o drama aparece, surge potente.


No entanto, aqui e ali, num crescente, esse universo vai sendo enfraquecido por elementos estranhos, principalmente na trilha sonora. Músicas de Nina Simone ou Gloria Gaynor ferem o estado das coisas, cobrando uma energia e disposição do espírito que não está presente. Quando retornamos às personagens em sua lógica própria, a linha emotiva foi rompida... é preciso recomeçar. E a cada instante, a reconstrução do universo simbólico e cênico vai se tornando maçante, frágil, nada fica no lugar.


Tivemos um primeiro contato com Sertão Hamlet em 2016, ocasião em que as impressões deixadas pela obra, muito positivas, contrastam com aquelas tidas em 2019, cuja breve exposição você pode ler aqui no GO Teatro, e com essas de 2022, no Aldeia Sesc de Artes. A memória não nos permite dizer quais foram as significativas mudanças. Possível até que a estrutura esteja intacta, mas talvez algumas inserções textuais, quebras e interações com a plateia, algo no domínio do tempo fizeram dessa experiência de 2022 algo muito distante do que vimos em 2016.




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