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Começaria Tudo outra Vez

Atualizado: 1 de nov. de 2022

Giro 8 Cia de Dança demonstra força e amadurecimento na retomada pós pandemia


Uma das novidades a se apresentar no Goiânia em Cena, que já havia se apresentado há poucos dias no Aldeia Sesc de Artes, foi o espetáculo Começaria Tudo Outra Vez, mais nova produção da Giro 8 Cia de Dança. O trabalho marca o retorno da companhia aos palcos da cidade após a pandemia de covid-19. É possível que daí tenha vindo o nome do espetáculo, que escolhe a canção de Gonzaguinha como título, dentre outras interpretadas por Maria Bethânia, as quais embalam as coreografias de Joisy Amorim.


O espetáculo marca uma nova aposta nos trabalhos da Giro 8, que com gestão estratégica, visão de mercado e boa rede de apoios institucionais, conseguiu, em pouco mais de dez anos de existência, resultados, visibilidade e um desenvolvimento criativo que merece atenção. A busca por inovar e a vontade de experimentar tem sido uma marca da companhia em seus últimos trabalhos. Sr. Will usava um robô para brincar e pensar a relação corpo e máquinas. Com Começaria Tudo Outra Vez a companhia vem à cena com sede de mais.


O formato do espetáculo, todo ao som das músicas de um artista consagrado e de grande apelo popular tenta repetir o feito que conseguiram outras companhias ao usar da mesma fórmula, alguns trabalhos que Goiânia conhece bem. Em 2005, a Quasar estreou Só Tinha de Ser com Você, montado com as músicas do álbum Elis & Tom, de 1974. A elegância da visualidade na luz, nos figurinos e no cenário se alinhava com a coreografia, esta estava em sintonia com o clima introspectivo do álbum e o trabalho deu projeção nacional à companhia goiana.


Por aqui também esteve mais de uma vez o espetáculo da companhia carioca Focus Cia de Dança, As canções que você dançou pra mim, construído em cima dos sucessos de Roberto Carlos. As músicas, em sua maioria são tocadas apenas em trechos, pois se inserem mais de 80 delas. O espetáculo não é ambicioso e vem do coração, fruto de uma vontade pessoal, e consegue ser equilibrado, criar momentos divertidos e interessantes sem ficar submetido à força da referência musical. Foi e é um tremendo sucesso de público.


Começaria Tudo Outra Vez, da Giro 8, começa potente, provocativo e tomando o espectador de assalto com os batuques da canção, a voz forte de Maria Bethânia e um solo certeiro de Gleysson Moreira que demonstram a sede da companhia por desbravar e conquistar. A música usa tambores e fala da natureza, a coreografia traz uma energia guerreira e ondulante, um conjunto que evoca o Brasil em suas raízes indígenas, afro e tropicais. Uma energia alta, poderosa... difícil de manter.


Eu não sabia que esse era um trabalho feito com músicas de Maria Bethânia, o que confirmei com o andamento do espetáculo. Talvez ter a informação de antemão me evitasse, no contato com a obra, a frustração com a ideia. Afinal, já vi outros nesse modelo e gostei, embora não seja a ideia a mais original. Mas o que parece diferente nesse caso é que não se consegue apreender em Começaria Tudo Outra Vez a unidade e o objetivo sensível e estético do espetáculo.


As músicas são diversas, abrangem um pouco dos variados estilos que Maria Bethânia trabalha ou já experimentou. Dessa força inicial, que junto à luz e o cenário, nos guiava para um momento de apoteose, de apelo épico, uma ou duas músicas depois estamos ao som de “Você”, letra de Roberto Carlos, e o mesmo Gleysson Moreira nos entrega uma inspirada e marcante interpretação do abandono, com movimentos tocantes e assinatura pessoal. O número é lindo, mas no decorrer do espetáculo, eles vão se isolando na memória.


Gleysson Moreira é um espetáculo a parte, e todos os dançarinos estão bem. As coreografias são consistentes e exploram o conjunto dos corpos de forma criativa. A luz está afinada e contribui com guiar nosso olhar. O uso diversificado do cenário, também como objeto de cena e para a transformação do palco atinge bom nível. Todos pontos fortes que demonstram que a Giro 8 busca superar-se e levar-nos a outro patamar.


Começaria Tudo Outra Vez tem potencial para alcançar vários dos objetivos da companhia. A seleção, e até a ordem das músicas, pode refletir uma fragilidade na concepção, mas também um sintoma de outros trabalhos, não só da Giro 8 mas de outras companhias de dança contemporânea: a necessidade de provocar tudo, do riso ao choro, da contemplação à reflexão. Às vezes nos serve melhor um mergulho profundo numa só dimensão.


Elenco: Ana Silva, Inaê Silva, Gleysson Moreira, Lucas Syuga e Lucas Pardin.


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