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Crises de identidade

Atualizado: 16 de Jun de 2018

A peça Dois por Um anuncia a oferta, mas fica devendo a dobradinha.


O espetáculo Dois por Um estreou temporada de três dias em 02 de maio no Teatro Sesc Centro, onde geralmente o tempo em cartaz de uma peça não passa de uma noite. Além das sessões às 20h, abertas ao público, havia ainda sessões às 15h exclusivas para grupos escolares. Ao todo a temporada tem impressionantes 20 sessões, que se completam com mais 14 apresentações em colégios da cidade. Além disso, a sessão do dia 03 contava com interpretação simultânea em LIBRAS, e a do dia 04 com áudio descrição e com a exibição de um pôster em Braile.


Os números e feitos são de atiçar os ânimos descrentes com nossa produção artística e de encher os olhos dos que avaliem a prestação de contas que a Giro Oito Cia de Dança fará dos recursos recebidos do Fundo de Arte e Cultura de Goiás em 2016. Infelizmente, porém, a temporada de Dois por Um demonstra que nem sempre os números e o que está coeso, bonito e aprovado corresponde àquilo que de fato se produz e se alcança artística e socialmente na execução dos projetos culturais.


O espetáculo se insere na leva de projetos recentes que atendem às novas exigências dos mecanismos de financiamento público, os quais, com o objetivo de promover o acesso das pessoas com deficiência aos bens culturais, pontuam projetos que apresentem ações de acessibilidade. A sessão a que assistimos foi a do dia 03, que contava com interpretação em LIBRAS, porém, além de não ter atingido um quarto da capacidade da sala, não houve um surdo sequer na plateia.


Desse modo, sem atenção ao público visado e sem eficiente estratégia de difusão e alcance, ainda que se concretizem e sejam bem executadas, as ações propostas não surtem resultado. Deixam de provocar essa sensação de bem estar socialmente responsável, que até nos emociona de tão rara, e se tornam causa da cotidiana frustração e desgosto de ver mal gerido e mal aplicado o dinheiro público.


* * *


Dois por Um começa de forma interessante, atiça a curiosidade, instiga. Não é comum ver o teatro falar de ficção científica e, de alguma forma, o frescor que essa temática de fundo confere ao espetáculo se faz presente até o fim. A dramaturgia, muito simples, proporciona leveza e o desempenho de Vanderlei Roncato, como o humano Kei em processo de reeducação nas mãos de duas androides, além de espirituosa participação em vídeo de João Bosco Amaral, garantem o humor.

Elenco de 2x1. Um ator e duas dançarinas-atrizes (foto: Thiago Spósito).

Não desagrada e tem graça, porém, fica devendo. As cobranças diminuem ao longo da peça quando a desconfiança do princípio nos convence: estamos diante de teatro infantil, feito para crianças. Mas ainda aí um incômodo persiste, um pesar de que algo falta, de que poderia ser melhor, de que as crianças merecem mais. Diante de tais impressões, surpreende a fala do diretor Antonio Gomez Casas, ao final do espetáculo, quando indagado sobre esse possível direcionamento da peça. Ele afirma que não gosta nem acredita em tal divisão do teatro entre infantil e adulto, e que a obra, de sua autoria, foi pensada para ambos ou qualquer público.


Há nisso um evidente ponto cego da direção. A obra está em muitos aspectos moldada segundo fórmulas do mais elementar teatro feito para crianças. O tom é altamente didático, dramatizando o cotidiano com um texto autorreferente, cheio de perguntas e explicações, e com uma “moral da história” a ser declarada ao final. A encenação, por vezes clownesca, e as coreografias robóticas arrematam a aposta. Até na dramaturgia Casas se usa do recurso da história dentro da história e insere a narrativa dos androides num universo em que os espectadores são tomados como alunos em uma palestra, na qual são tratados por “crianças”.


Resta ponderar as possíveis razões dessa confusão identitária. Parece provável que, sabendo das inúmeras apresentações em escolas, Vanderlei Roncato sabia o que tinha de fazer e trouxe a experiência com crianças e estudantes para o processo de criação. Perguntamos-nos ainda se a pouca familiaridade do diretor espanhol com o português brasileiro não lhe haverá impedido de ver certos rumos que tomava a interpretação dos atores.


Roncato contracena com duas dançarinas que se desempenham pela primeira vez como atrizes. Se certa frieza rítmica e de pequenos movimentos articulados da dança contemporânea estabelecem interessante ressonância com a frieza maquinal dos robôs, tal falta de vida, infelizmente, também se faz presente na interpretação. Valeska Gonçalves logra vigoroso controle e precisão de movimentos, enérgica exploração da rigidez robótica e neutralidade facial, mas o mesmo brilho não se percebe na expressão vocal. Sua companheira Erica Bearlz transparece insegurança.


Nesse cenário, Vanderlei está sobrecarregado e se incumbiu, provavelmente desde o princípio dos ensaios, a responsabilidade de dar vida às cenas. Para isso, recorre à experiência com o teatro infantil e exagera na efusividade, na gesticulação e nas repetições de ganchos e falas soltas da personagem. Busca o riso fácil. Faz aquilo de que o teatro infantil não carece, mas a que muito recorre: teatraliza o teatral.


Ou Dois por Um concilia-se com o que tem de melhor e entende-se como uma interessante obra para crianças e adolescentes, ou ela confessará uma ingenuidade imperdoável. Até porque, as próximas apresentações em colégios, com um público pouco ou nada iniciado, não lhe vão orientar na correção dos equívocos que o absolveriam da propaganda enganosa.


Rafael Freitas

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