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Cuidado, frágil

Espetáculo da Cia Catavento sintoniza com a precariedade da realidade nacional

#GoianiaEmCena


Nenhum espetáculo que se apresentou em Goiânia nos últimos meses se alinha tão bem com nosso presente imediato quanto Hiato, que foi apresentado no dia 26 de outubro dentro da programação do 18º Goiânia em Cena. O risco e a instabilidade que são explorados ao limite pela Cia Catavento afloram em nós emoções e nos exaltam os nervos de uma forma que somente a política nacional e as eleições têm conseguido fazer.


Enquanto o espetáculo De Tempo Somos, do Grupo Galpão (críticas disponíveis nos links abaixo) nos levava na direção contrária, suspendendo a tensão para instalar um clima de comunhão e celebração, nos lembrando que isso é possível, Hiato nos põe em alerta. O espetáculo explora o desequilíbrio e elabora a experiência do espectador explicitando a precariedade, o risco e o colapso iminente, cobrando atenção intensa e provocando aqueles assombros de incredulidade.


O jogo com o risco e a instabilidade adquire contornos ainda maiores no Teatro Goiânia Ouro, em si precário, comparado a palcos maiores onde Hiato já se apresentou. O conjunto é representativo do momento e do próprio Goiânia em Cena, que volta a acontecer após a pandemia, de forma muito mais modesta que em outras edições. O desafio de voltar à cena é, inclusive, um dos temas da mostra. A precariedade do equilíbrio em Hiato emula o que esse ano representa para a cena artística, assim como para a política: 2022 é um ano de passos pequenos e cuidadosos, os riscos são altos e os detalhes fundamentais, tudo cabe na margem de erro.

Mas Hiato tem ainda o mérito de envolver tudo isso numa atmosfera solene, atemporal, essa sim suspensiva, o que deixa tudo mais a flor da pele quando se trata de observar os corpos em cena. Nesse sentido cooperam a trilha instigante e executada ao vivo por Fernando Assis, o Cipó, assim como o ritmo lento do espetáculo, que distende o tempo e reduz o sentido das ações à sua literalidade: o corpo em desafio.


Falamos de um espetáculo de circo, o protagonista é o corpo, que ganha formas e torções plásticas potentes com Pedro Souza nas paradas de mão e no trapézio. Não há personagens, nem uma estrutura dramatúrgica que nos guie. O fio condutor são os desafios que se colocam um após outro e chegam a estabelecer paradigmas: Felipe Nicknig jamais pisa o chão, à exceção de um pequeno acidente.

Ambos artistas estão em sintonia e fazem interessantes movimentos em conjuntos onde estamos acostumados a ver apenas um corpo em ação. Na interação com os objetos, às vezes surgem esboços de intenção que não se desenvolvem, parecem frutos da ansiedade com a presença do público. A ausência de artifícios e interpretação dotam Hiato de uma limpeza e simplicidade que são positivas.


Se dissemos que o espetáculo nos coloca alertas, explora tensões e brinca com a instabilidade, é satisfatório dizer que o faz em nível poético. Atiça nossas sensações, desperta nosso corpo de sua comodidade apática. Seus efeitos são físicos, sensíveis, deixando em paz o intelecto e descansando a mente hiper estimulada. E até quando os corpos relaxam, Hiato nos recorda que mesmo a paz e o descanso repousam sobre um delicado equilíbrio de forças, que requer atenção e cuidado.

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