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Curso anárquico-musical de história peruana

"Já podeis da pátria filhos

ver contente a mãe gentil!"

Discurso de Promoción - Festival MIRADA - 17/09/2022


} Você chega inocente ao lugar em que se dará a apresentação de Discurso de Promoción, uma criação coletiva do Grupo Cultural Yuyachkani, e se depara com um palco minúsculo ocupado por dois sujeitos que tocam e cantam músicas peruanas. Logo que todos estejamos ali espremidos vem um terceiro camarada explicar que estamos na festa criada por pais, alunos e mestres de um colégio para arrecadar fundos para uma viagem estudantil. Pais e professores farão apresentações musicais enquanto são ajudados pelos alunos. Recomeça a cantoria e a festa vai de vento em popa.


Até que…


Uma banda de colégio, dessas com ares militares devido tanto ao som quanto a andar marchando, interrompe um professor e nós somos convidados a entrar para o espaço do colégio fictício. Agora é que começará a peça.


Os alunos começam explicando quais são suas personagens e vemos correr ante nossos olhos um desfile que vai da Morte à Cantora passando pelo soldado desconhecido e A Mulher Vestida de Preto. Começam então os alunos, a nos explicar o contexto de sua peça: o bicentenário da Independência do Peru - só posso dizer que assistir essa peça 10 dias depois do nosso último 7 de setembro doeu um pouco mais do que deveria.


O bicentenário deles aconteceu em 2021, e logo algumas personagens começam a dizer porque não estarão na peça: nunca fizeram parte da história oficial, foram escorraçadas de livros e memórias então se recusam a essa celebração. Daqui pra frente teremos uma aula anárquico-musical sobre a história do Peru. Uma aula que é um esplendor em sua visceralidade, pungência e beleza.


É impossível falar tudo que acontece nessas duas maravilhosas horas de aula. A quantidade de recursos, a quantidade de objetos de cena, a quantidade de fatos históricos, a quantidade de dados corrigidos e revelados é imensa e não pesa graças à excelência do todo. Eu não poderia jamais dizer que sou um conhecedor da história do nosso país vizinho. Quer dizer, não era. Agora eu sinto que tenho dados suficientes para dizer que somos muito parecidos, infelizmente. O apagamento de mulheres, negros, povos originários, pessoas LGBTQIA+, pobres não é uma benção que recaia apenas sobre nossas cabeças brasileiras. É uma praga que herdamos da nossa colonização. Assim também as desigualdades atuais e até as ditaduras militares que comeram este continente. Contudo, mesmo tão iguais, conseguimos ser específicos na crueldade das nossas mazelas.


Sendo uma criação coletiva não tem como falar de individualidades aqui. Principalmente, porque os artistas fazem tudo. Mas é tudo mesmo, você não duvide: cantam, dançam, recitam, narram, performam. É impressionante o vigor desse povo, minha gente, porque temos aqui um espetáculo que, para entregar tudo, exige tudo. O coletivo está em cena quase o tempo todo, seja atuando, seja fazendo contra-regragem, seja montando a próxima cena, seja cantando ou tocando. São pouquíssimos os momentos de respiro que eles têm. E cada gota de suor deles vale muito pra nós.


Ao final, eles montam um quadro com todos os objetos de cena que usaram. É algo impressionante: a um tempo barroco, disforme, terrível e belo. Nós temos muito a aprender com eles.


A sensação que fica é que eu conheci um pedacinho minúsculo dos 51 anos do Grupo Cultural Yuyachkani - sim, eles estão comemorando 51 anos - e um pedacinho minúsculo dos 200 anos do Peru, e eu preciso de mais pedacinhos. Pedações mesmo.


Uma nota de rodapé: vocês não voltaram para os aplausos no final do espetáculo, mas se esse meu texto chegar a qualquer um de vocês, recebam todo aplauso do mundo. Até minhas mãos doerem porque vocês merecem demais.


Outra nota de rodapé: como vocês organizam tanto objeto de cena, minha gente? Depois da apresentação que eu assisti vocês teriam outra e tava tudo misturado naquele tableaux final! Além de atletas cênicos vocês ainda são uma Marie Kondo das coxias! }




Danilo Chaves é ator e dramaturgo. Ele viajou ao festival a convite dele mesmo - mas se quiserem me convidar pra ver qualquer coisa é só me procurar em @odanilochaves em todas as redes sociais.

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