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Estrelas no chapéu, estrelas no céu

Grupo Teatro que Roda retoma espetáculo sobre a condição das mulheres no cangaço


Donde estão as estrelas é uma pergunta que ressoa em nossa mente quando somos abandonados à própria existência ali nas calçadas centrais da cidade, em horário de pico ao fim da tarde. O espetáculo se esvai sem aviso, em meio ao barulho, a agitação, o vai e vem de carros e gente céleres; desaparece tal como apareceu, quando seus ruídos, gritos, batidas e cantos começaram a destoar da normalidade caótica do cenário urbano.


Mas a tensão que já estava no ambiente não dá lugar à contemplação de um cortejo ou a um casamento farsesco. Ao contrário, ela se intensifica. O espetáculo usa a rua a seu favor na composição de uma atmosfera de apreensão e hostilidade. Somos todos parte de um bando. Perdidos, somo guiados por duas mulheres. Elas não parecem saber muito melhor do que nós o que está acontecendo, mas nos levam por ruas e becos, fugindo de forças policiais que já dizimaram o resto do bando e todos os seus companheiros. Um grupo de cangaceiros está sendo eliminado.


Maria é, digamos, mais experiente. Segundo as palavras de Ana, está ali porque quer, buscou desde sempre a errância e a violência como meio. De si, Ana diz que não teve escolha, preferia outra vida, tinha sonhos. Mas os caminhos que levaram ambas ao mesmo lugar passam pelas mesmas encruzilhadas. A polícia, o cangaço, a família: todas são instâncias de violência, não há escape na condição de mulher sertaneja. O que Ana diz ser uma escolha, é uma aceitação profunda de Maria quanto às regras do jogo, o que a torna mais forte, sanguinária e destemida - qualidades que em breve farão dela a capitã do bando.

A dramaturgia não está muito focada em contar a jornada de Maria como cangaceira, mas em destacar os pontos de sua trajetória em que o masculino a agride, estabelecendo para nós os passos da transformação da vítima em algoz. Mas a subversão dos papéis e a ocupação do lugar “do homem” cobram seu preço: nesses casos a morte não é castigo suficiente. Ana sinaliza para a continuidade da luta. Herdeira de sua protetora, aprendeu com ela sem sofrer suas experiências, leva na consciência as dores que Maria sofreu na alma.


O elenco feminino se destaca. Ieda Marçal dá muita densidade a Maria e emociona. Força que também demonstra Flávia Carolina Almeida no canto. Ludmyla Marques as acompanha e, junto a Ieda, carrega de tensão o percurso do espetáculo. Milton Aires é quem mais personifica a instância opressora masculina, que não é um homem só. Nesse sentido, será que o policial que confronta Maria precisava ter a mesma face de seu pai? Ou um mascarado como os demais cumpriria bem essa despersonalização da violência que se perpetua? O espetáculo opta por reafirmar os traumas de Maria.


O trajeto do espetáculo pelas ruas do centro da cidade favorece a encenação e é, em si mesmo, uma experiência. Adentramos becos e pátios que talvez nunca conhecemos, vemos prédios de ângulos inéditos. Os espações se encolhem, esmagam a cena, aumentam a tensão; depois se abrem, apequenam os atores. As formas cúbicas de edifícios contra o céu emolduram as cenas. O bando, do qual todos fazemos parte, é levado daqui para ali, às vezes deixado a assistir, às vezes inserido na cena, vivenciando a tensão dos personagens e sofrendo a angústia do medo, da violência, da morte iminente.


O sufoco não passa quando o espetáculo acaba. Donde estão as estrelas?

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