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Felicidade e renúncia

Adaptada de conto de Oscar Wilde, peça discute as perdas e ganhos de se fazer o bem.

Peça faz ainda uma incursão pelo teatro de bonecos.

As peças regionais começam a voltar aos teatros da cidade. Depois da safra do primeiro semestre, nos meses de julho e agosto houve um verdadeiro inverno da produção local. No mês de julho, o Sesc Aldeia das Artes foi praticamente a única oferta na programação, e agosto viu a reocupação das salas principalmente com espetáculos nacionais em circulação, com um ou outro espetáculo goiano em reapresentação. Esse hiato, que sofre a evidente influência das férias de julho, é rotineiro e gera uma conhecida expectativa para o final de setembro e para o mês de outubro em que estreiam vários trabalhos, assim como acontecem alguns festivais, tanto em teatro como noutra áreas. Da paisagem herma e improdutiva dos últimos meses, a primavera no teatro goiano também é um tempo de abundância.


Voltam ao palco os nossos artistas e com eles também vêm à cena as questões do nosso teatro, as manifestações político-ideológicas e as aderências aos discursos em voga, ato de que os artistas de fora em geral se eximem, não amparados que estão pelos seus conhecidos e pela familiaridade com a cena. Assim, temos visto nas salas após os espetáculos ou mesmo no hall dos teatros o burburinho, às vezes polêmico, dos artistas, pautados pelas eleições e pelo atraso e temeridade do não pagamento de projetos aprovados pelo Fundo de Arte e Cultura nos últimos três anos. A agitação da classe nas últimas semanas, que deve seguir pelas próximas, tem então dois motores: de um lado, a esperada profusão de trabalhos e as muitas atividades programadas e, do outro, a insegurança e a luta de uma classe que se sente ameaçada por sua intrínseca fragilidade agravada pela proximidade de uma mudança de governo.

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Foquemo-nos, porém, no lado bom dessa conjuntura e falemos de uma das produções estreantes: O Príncipe Feliz. A peça é uma livre adaptação do conto de mesmo nome do escritor britânico Oscar Wilde. Rita Alves, que foi responsável pela adaptação dramatúrgica, divide o palco com Caco Rodrigues. Na história original conhecemos ao príncipe feliz, uma estátua, em sua relação com uma andorinha que quer reencontrar-se com seu bando no Egito, fugindo do inverno europeu. Na versão de Rita para os palcos, porém, a andorinha é uma artista que quer chegar lá... Esse “lá” abstrato e impreciso que é o sonho e o guia da caminhada de lutas e dificuldades do artista de rua, assim como da gente pobre, dos incapazes e dos oprimidos em geral. Essa abertura do discurso dá mostra da sensibilidade de Rita para manter na adaptação a singeleza e o apelo à imaginação que são a marca do conto original.


O príncipe era feliz vivo, agora chora por poder ver do alto de seu pedestal as misérias da cidade. Comovida com sua tristeza, a artista lhe faz companhia e cumpre-lhe os pedidos de ajudar aos necessitados levando-lhes o rubi de sua espada, as safiras de seus olhos e o ouro de sua vestimenta. Rita Alves é graciosa como Diadorinha, traduzindo também na palhaçaria a ingenuidade e riqueza imaginativa desse encontro improvável de personagens. Caco Rodrigues, como boa estátua, passa toda a peça em seu pedestal e, se bem força um sotaque estrangeiro vacilante, sua atuação e o tom da voz ajudam a evocar a atmosfera lúdica e fantástica que nos fez criança junto às demais que estavam na plateia. A imagem da estátua, sempre lá, desde antes da entrada do público, é um grande acerto. Além de uma bela caracterização, obra de Rita Alves e Graça Carneiro, o príncipe estabelece um ponto fixo e imponente ao redor do qual tudo passa e se desfaz. É uma eficaz representação do tempo, que fixa uma imagem à qual assistimos envelhecer.


Essa construção do tempo, talvez involuntária, é muito melhor que outra que a encenação procura fazer através de cenas em flashes e com ajuda da luz que acende e apaga. Além de mal amparada pelo texto, a execução é precária de modo que entende-se o objetivo da cena, mas às custas e após confundir e fazer duvidar o espectador. A adaptação de Rita é ótima, cativante, simples e certeira. Quando peca o faz por omissão. Na primeira parte do espetáculo, em que era imperativo mexer muito no texto, Rita cria teatro, com beleza e humor. A relação entre Diadorinha e a estátua é construída com muita teatralidade e graça. Mas no desenvolvimento da ação, em que o conto se põe um pouco parabólico, a dramaticidade estanca porque se prende à lógica estabelecida por Wilde. Disso ainda resulta que o final carece de motivação, o que no conto está dado desde o princípio: a andorinha precisa fugir do inverno, isso lhe é vital. Ficar é sua tragédia. Mas e Diadorinha, perece por desistir do sonho de chegar “lá”?

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