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Gratidão, lições a aprender e exemplos a seguir

Atualizado: 16 de Jun de 2018

No último domingo, 06 de maio, com a apresentação do espetáculo Adubo, encerrava-se a temporada da Agrupação Teatral Amacaca em Goiânia. O elenco da peça, além dos demais integrantes do grupo, que se haviam apresentado na sexta e no sábado com os espetáculos Punaré & Baraúna e Ensaio Geral, recebiam emocionados e chorosos os aplausos do público. Aqui, escrevendo, uma testemunha de que as lágrimas também caíam na plateia. O diretor Hugo Rodas, igualmente em pranto, agradecia e expressava seu fascínio pelo poder de comunicação de Adubo, um trabalho que já tem treze anos de vida, falando da morte.

Cena do espetáculo Ensaio Geral (foto: Diney Araújo).

Era um choro que não vinha da despedida. Que não vinha do drama. E que tampouco era tristeza. Vinha de uma emoção que é espanto, mas também satisfação; que é solidão mas repleta de prazer; que é plenitude e ao mesmo tempo pesar. Essa comunhão do espírito que o teatro, como poucos, é capaz de provocar assim, em conjunto. Catarse, disse Aristóteles. Impacto, disseram ao meu lado. Gratidão, gostaria de dizê-lo eu.


Ao final da peça, notava-se em todos aquele brilho de surpresa no olhar e aquela euforia incrédula que, quando finalmente verbalizada, se traduz no gratificante “muito obrigado”. Se a gratidão do público pela obra se percebia e se explicava de forma evidente pela experiência proporcionada, a remoção de sentimentos e o deleite de sensações, havia também gratidão por parte dos artistas que, se bem agradeciam a presença e a atenção do público, eram gratos por algo mais, de tradução um pouco mais difícil.

Depois da peça, se emocionaram todos, cada parte surpresa com os agradecimentos alheios, cada uma sentindo que recebeu mais do que deu. A gratidão predomina, desacostumados que estamos a comungar.

Vem-nos à memória as lições de Renato Ferracine sobre o verbo doar, verbo bi-transitivo: quem doa, doa algo a alguém. Num espetáculo do alcance de Adubo, o ator, ao doar-se em vida sobre o palco, pleno do dever cumprido, alcança a plenitude. Sua satisfação, então, nasce de poder ver no público, manifesta em aplausos, espanto e prazer, a vibração da vida que ele gerou com seu corpo e espírito, e com a qual nos presenteia em cena, doando-se a nós.


Depois da peça, se emocionaram todos, cada parte surpresa com os agradecimentos alheios, cada uma sentindo que recebeu mais do que deu. A gratidão predomina, desacostumados que estamos a comungar.


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Mas porque o trabalho da Amacaca é tão bom? Não é preciso mencionar, com o que lemos acima, o nível de entrega e maturidade dos atores, que somado à solidez das obras, já consagradas, são receita de sucesso. Mas ressalte-se o refinamento das marcações, a riqueza de recursos musicais, visuais, dos efeitos de luz, e do figurino, tudo orquestrado num ordenamento fluido e harmônico que somente o trabalho árduo e sério de muito ensaio pode produzir e manter.


O conhecimento e o refinamento de Hugo Rodas justificam sua fama. As três peças apresentadas nessa temporada demonstram ritmo ágil e instigante, um senso de atualidade e um frescor raro de se ver nos palcos goianos. Nesse sentido, me lembro de ver algo parecido na estreia de Pitoresca, da Cia NuEscuro, em 2015. Era uma aposta radical do grupo, muito contrastante com seus trabalhos mais conhecidos, de temática mais sertaneja e elementos tradicionais da contação de histórias, do teatro de bonecos (que estava lá) e do teatro de rua. O resultado era muito agradável. Infelizmente, ainda não tive a chance de revê-lo, tendo ficado com as ótimas impressões da estreia.


Sertão Hamlet, de Guido Campos, é outro exemplo a ser citado. Na simbiose que faz do príncipe dinamarquês com o cangaceiro Lampião, o ator e dramaturgo não se tolhe por nada para dar vazão a cada rompante cênico que lhe ocorre. Os ímpetos do ego criador, amparados pelo domínio de palco e bom controle rítmico, resultam em vigor e avidez. Fora alguns exemplos como esses, há em Goiânia uma impressão geral de mesmice predominante. O próprio Pitoresca parece ultimamente abandonado pela NuEscuro, enquanto Sertão Hamlet se prepara para uma segunda temporada em São Paulo.


As propostas mais interessantes do teatro contemporâneo e as investidas do pós dramático, no nível de elaboração e na busca dos efeitos que alcança a agrupação Amacaca, requer experiência, pesquisa, coragem e atrevimento. Requer um despojamento para o qual nosso teatro ainda não demonstrou a confiança necessária. Seria consequência da nossa condição de interior onde as novidades tardam e custam a firmar-se? Faltará por aqui o profissionalismo que demonstra o coletivo de Brasília? Ou faltaria aos nossos profissionais visão e vontade de inovar?

Rafael Freitas

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