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Nuas Colunas

"car ma vie,

car mes joies,

aujourd'hui,

ça commence avec toi"

Fuck Me - Festival MIRADA - 16/09/2022


} Você com certeza se lembra do final de La Mome, a cinebiografia da Piaf. Se não se lembra, assista pra se lembrar pro resto da sua vida. No final de La Mome, não choraminga que não vai spoiler nenhum aqui, mas no final do filme nós vemos uma idosa centenária aos 40 anos. É a Piaf, carcomida pelo vício em morfina e pela artrite severa. No final de Fuck Me, vemos Marina Otero, bailarina e coreógrafa argentina, diretora do espetáculo, igualmente debilitada por uma cirurgia na coluna que a impede de se locomover, que dirá dançar. A figura a um tempo frágil e incandescente da artista vai morar na minha cabeça uns bons tempos.

(Prepare-se que até o final desse texto você verá pelo menos cinco bilolas).

Fuck Me começa com músicas em espanhol e um palco iluminado em fortíssimo tom vermelho. Assim que as luzes da plateia se apagam, começa uma movimentação leve entre o público. Uns sujeitos discretamente começam a se despir [uma bilola] e vão para o palco. [dua bilolas] Em lá chegando cada qual no seu espaço começa uma [três, quatro bilolas] coreografia repetitiva [opa, quinta e última bilola] e por vezes muito arriscada: todos os bailarinos vestem apenas coturnos e joelheiras e um deles faz um giro no ar e cai em abertura espacate no chão. Sim, isso mesmo, como veio a mundo. Quer dizer, como veio ao mundo não porque ele dificilmente nasceu de coturno, joelheira, pelos e outros sinais que demonstram o dimorfismo sexual.

Lenta e decididamente entra uma mulher que se arrasta. O corpo contorcido pela dificultosa e dolorida caminhada. Ela se senta e começa a contar sua história. Ela é Marina Otero e é fundamentalmente bailarina. Por um problema de coluna, que acabará numa cirurgia, não pode mais dançar. Aquele espetáculo que estamos assistindo é o terceiro de uma trilogia sobre ela - que narcisisticamente explica que gosta de falar de si e que é o único corpo que pode contar sua história. Impedida de dançar escolheu um daqueles cinco corpos para representá-la. Assim iremos até o fim com intervenções narrativas, coreografias, vídeos, canto e a história dessa mulher. E um pedacinho da vida de dois dos bailarinos que na verdade é a visão dela dessas vidas.



Você já deve ter se dado conta de que é um espetáculo de autoficção. Não se deu? Pois é. Autoficção. O artista que costura partes de sua história com mentiras bem contadas de tal modo que não se distinguem mais. Uma e outra são tão boas e bonitas e servem bem à criação da narrativa artística à sua frente. Podem ser vídeos de seus espetáculos anteriores, ou vídeos seus em criança, uma foto de sua avó morta, a história do seu avô militar, sua cirurgia na coluna, sua relação com a juventude e a beleza, o processo de montagem deste mesmo espetáculo, e os corpos que dançam tudo isso.

Em meio a uma cena em que os bailarinos reencenam o impacto que causou a lesão na coluna vertebral da Marina [espero que eles sejam mais cuidadosos porque se não teremos outros 5 Fucks Mes, um pra cada outra coluna espatifada] ela, Marina, recita num megafone um áudio que gravou quando saiu da sala de cirurgia. É um dos textos poéticos mais lindos que já vi, em que uma mulher fragilizada fala de osso a osso, parte a parte de seu corpo, dizendo como cada um deles se sente ao sair desse evento traumático e inescapável.

O contraste entre os corpos vigorosos dos bailarinos em seus saltos, giros, corridas e quaisquer outros movimentos, e o corpo frágil, lento e doloroso de Marina, é posto em relevo quando ela ordena. Marina tem a voz de comando, voz forte e imperiosa e aos seus bailarinos cabe unicamente obedecer. E eles obedecem sempre com total devoção.

Acaba a apresentação e o único corpo em cena é o de Marina que dançou, em suas minúsculas possibilidades, entre aqueles outros corpos pulsantes. Cai uma chuva de aplausos, os artistas agradecem. Marina sai amparada e sorridente em meio à sua dor e lentidão.

Olho para minha irmã aloprado pra comentar essa beleza quando Marina entra correndo de volta no palco. O susto é tanto que nos sentamos. Ela anuncia que podemos ir embora, ela vai ficar correndo.

Uai, mas essa mulher num tava entrevada agorinha? E aquilo tudo que nós passamos juntos? Importa que nem tudo seja verdade? Ela fica mais bonita porque corre? Se ela ficar correndo muito tempo vai entrevar a coluna de novo, coitada? Ela não vai parar de correr mesmo? Mas que mulher filha da… musa!

Eu saio estarrecido e inebriado, enquanto ela corre nua como se nada tivesse acontecido. }



Danilo Chaves é ator e dramaturgo. Ele viajou ao festival a convite dele mesmo - mas se quiserem me convidar pra ver qualquer coisa é só me procurar em @odanilochaves em todas as redes sociais.

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