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O sentido está na busca

Atualizado: 16 de Jun de 2018

O Espírito da Montanha suspende o tempo e nos convida a refletir sobre o saber viver.


A peça, com direção de Franco Pimentel, é inspirada no conto chinês O Lago Verde Oliva, uma parábola sobre a compaixão, a lealdade e o autoconhecimento. Um jovem camponês, que muito trabalha e nada tem, parte em busca de respostas a essa contradição, deixando para trás sua mãe e a inerte rotina do cultivo da terra. Motivam-lhe à partida a pobreza em que vivem, a injustiça no comércio dos grãos e o quão turva se encontra a água do lago ao lado de sua casa.


Com a determinação e honradez típicas de um herói oriental, o jovem parte em busca do espírito da montanha, que lhe proverá de respostas. No entanto, os perigos, os encontros e as revelações da jornada vão alterar as perguntas e seu modo de ver a vida. O correr constante e as lutas recorrentes, em imagens de delicada beleza, embalados por uma épica trilha musical, lembram que crescimento e aprendizagem exigem movimento. É preciso desafiar-se, perseverar, remar contra a inércia das águas turvas e fazer-se novas perguntas.


Surpresas no caminho. Atores: Bruno Di Tanno, Otto Caetano e Laízia de Jesus.

O espetáculo é cativante, embora tarde um pouco a prender-nos à história, a ganhar vida e pulso dramático. A parábola, um texto enxuto e de rápido avanço narrativo, não é um material de fácil adaptação para os palcos. Franco Pimentel opta por inserir um narrador em off que nos conta a história, deixando os diálogos e interações de personagens (fatos essencialmente dramáticos) com a função de demarcar sentimentos e emoções. Isso resulta monótono na primeira parte da jornada, quando ainda não há expectativa de conflito. O espectador, no entanto, pode contar com um bem logrado alívio cômico, com as agitadas lutas coreografadas e com as surpresas da montagem para sacudir sua atenção. Terá mesmo de virar o pescoço para ver tudo que se passa na sala.


O Espírito da Montanha adere ao que parece ser uma moda recente no nosso teatro, a projeção mapeada. Esse recurso é responsável por todos os cenários da peça, quase sempre fazendo as vezes, sem nenhuma inovação, dos painéis de fundo tradicionais, ou no máximo com algum movimento tosco de folhas e vegetação. Há imagens muito bonitas, que nos ganham pela exuberância, e há, também, detalhes que chamam a atenção como a sombra do microfone de teto no meio de um grande Sol, ou as linhas e cores de um desenho no rosto de um ator em monólogo. Num espetáculo de forte apelo imagético e que preza pelo impacto visual, esses detalhes sobressaem com proporcional relevância.


Nota-se em outros aspectos da montagem algo dessa mesma falta de acabamento. A narração em off, inexplicavelmente, é feita ao vivo, incorrendo nos inevitáveis e previsíveis atropelos de uma leitura em voz alta. Os microfones, que fatalmente se veem, nem sempre funcionam. As lutas coreografadas não fazem feio, mas poderão estar mais refinadas e orgânicas em temporadas futuras. O time de atores apresenta irregularidades, com desempenhos convincentes de alguns e outros que às vezes se desconectam da cena, perdidos e sem domínio da representação nada naturalista que se lhes pede. As cenas de humor, algo clownescas, algo infantis, funcionam bem e conquistam a simpatia do público; servem, inclusive, para aliviar as tensões do próprio elenco.

Rafael Freitas

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