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Parábola dos bons filhos do mal

Atualizado: 22 de set. de 2022

"Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela"

Os Filhos do Mal - Festival MIRADA - 14/09/2022


Eu, mais interessado em teatro do que em qualquer possível e imaginável serrana bela, passei 10 anos tentando chegar ao MIRADA - um festival iberoamericano de artes cênicas que acontece de dois em dois anos nas curvas da cidade de Santos - e, finalmente, #teve. Não é por vaidade de citações poéticas que Camões vem de epígrafe e mote a esse texto. Nesta edição do MIRADA, o país homenageado é a musa do meu fado, a minha mãe gentil: este imenso Portugal.


Vamos botar os pingos nos ii… nos is… nos izes… vamos deixar todo mundo ciente de que eu chego no festival um cadiquim atrasado. Ele já está acontecendo desde o dia 9 e eu chego só no dia 14. Vamos também explicar que está um chuveiro nesta praiana cidade. E nem a chuva, nem o mar, nem o brilho das estrelas tiram a maravilha que é estar no meu primeiro espetáculo deste festival. Não deu outra, essa primeira vez foi com uns portugueses.


Da terrinha, chegou ao Teatro Guarany o Hotel Europa, companhia portuguesa fundada pelos artistas André Amálio e Tereza Havlíčková, que nos apresenta do bom e do melhor com a peça de teatro documental Os Filhos do Mal. Essa jóia, que você vai conhecer em alguns segundos, é a segunda peça de um estudo das raízes da história nacional portuguesa, ciclo começado com Os Filhos do Colonialismo (2019).


Podemos e devemos começar pelas cabeças situando o local, já que do tempo pluvioso nós conversamos antes. O Teatro Guarany originalmente foi construído em 1882 e, seguindo o destino de todo teatro de pelo menos uma vez pegar fogo, sofreu um incêndio e foi reconstruído. É um teatro, bastante bonito, de 300 lugares num cruzamento entre conservação e reformulação do que foi. Nós éramos o quê? Uns cem? Talvez uns cem, pouco mais pouco menos, que tivemos o prazer de ver o pano aberto sobre aquele palco que de novo pegou fogo - dessa vez metafórico e, talvez por isso, mais potente.


Ana Rita Ferreira, Ana Sartóris, Cheila Lima, João Esteves, Paulo Quedas, Rita Tomé. Esses nomes são em si documentos. Eu sei bem que para você ainda não são documentos completos, claros e sonantes. E é bem assim que nós entramos em Os Filhos do Mal, com um passaporte de alguns nomes e alguns dados. Ficamos sabendo quem são os atores em cena - são aqueles ali de cima - ficamos sabendo de alguns parentes deles: pais, tios, bisavós. Um questionário simples - repetido com variantes durante o espetáculo - nos situa na relação dessas famílias com a ditadura fascista de António Salazar, que se apossou de Portugal por quase 50 anos até a Revolução dos Cravos. Porque essa é a história do espetáculo: como seis famílias diferentes navegaram os tempos terríveis daquela ditadura. E nós temos todo tipo de história: dos colaboracionistas e participantes aos opositores e presos políticos.


E temos também todos os recursos possíveis para nos fazer chegar a essa história: vídeos gravados ao vivo e transmitidos ali mesmo, vídeos previamente gravados, narração, música, performance e até as artes culinárias - pois é, dá-lhe de artistas cortando, temperando, empanando e fritando uma lula no meio do palco. Essa profusão de histórias, essa profusão de recursos, também aparece na profusão de materiais que ilustram as histórias: fotos oficiais e de família, cartas, documentos governamentais, áudios de whatsapp. Dá um estalinho na tua imaginação aí que eles devem ter usado lá.


O palco tem ao fundo um arquivo de onde são retirados essas provas físicas, tem uma vitrine que vai sendo montada aos poucos com as mesmas provas, tem duas câmeras, tem uma mesa - que é mesa, é rio, é mapa de Portugal, dependendo da necessidade - tem umas cadeiras e um microfone. Tudo é manipulado pelos atores que trazem e tiram o que seja - aviõezinhos e carrinhos de plástico para explicar a fuga de uns assaltantes de banco contra o regime ou a lula que será temperada, empanada e frita.


Os atores saem-se bem desse inventário de ações e histórias cada qual com sua família, às vezes se contrapondo, às vezes tangenciando. Há momentos de drama - como as narrativas de tortura; de intenso lirismo - o filho que canta uma musica revolucionária com o pai; e de boa comédia - a atriz pedindo que todos saiam do palco e que se apaguem todas as luzes para não revelar o ingrediente secreto da lula frita.


Um espetáculo com uma concepção e um cerne tão fortes não precisaria de direção quase nenhuma, ainda assim nota-se o preciosismo da direção especialmente nas movimentações em grupo que são impecáveis. Junte ainda um figurino cotidiano e aconchegante, afinal, são nossos amigos ali contando histórias de família, e uma iluminação que só eleva a cena e nós temos uma noite divina.


Como que eu faço você entender a força que é uma atriz limpando uma lula dentro da prisão transparente de um saco plástico? Ou um filho se sentando para cantar na mesma posição de uma foto da mãe quando desafiou a censura salazarista? Ou um grupo marchando enquanto canta um hino fascista fazendo aquela tétrica saudação? Eu não faço. O Hotel Europa faz de modo absolutamente inarredável em Os Filhos do Mal.



Danilo Chaves é ator e dramaturgo. Ele viajou ao festival a convite dele mesmo - mas se quiserem me convidar pra ver qualquer coisa é só me procurar em @odanilochaves em todas as redes sociais.

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