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Paranoias de espectador

A adaptação de um conto de Edgar Allan Poe e seus desdobramentos reflexivos

Um gato pelas paredes. Foto: Gilson P. Borges.

A Cia. Teatral Oops está celebrando seus 18 anos com intensa programação desde o mês de março. No último fim de semana, a companhia apresentou no Teatro Goiânia Ouro as peças Gato Preto e William Wilson, partes finais da Trilogia Poe, iniciada com Olho, que se apresentou em março no Teatro Sonhus. Assistimos a Olho em março e a Gato Preto no sábado e esperamos que haja, em breve, nova oportunidade de conferir o último capítulo de adaptações dos contos de Edgar Allan Poe.


Gato Preto dá continuidade ao estilo explorado em Olho, adaptando o conto homônimo do escritor que traz, como de costume, um narrador em primeira pessoa contando feitos e histórias do seu passado. No monólogo, cabe à atriz Sol Silveira a interpretação dessa personagem complexa, que oscila entre a lucidez irônica da narração e a afetação histriônica da experiência vivida. O jogo entre passado e presente, obtido em Poe, não encontra entraves na adaptação e a peça conta bem a história, valorizando sustos e surpresas. Cenário, iluminação e figurino criam atmosfera lúgubre e suspensiva que acomoda bem o texto.


As falas em off, já vistas em Olho, e as projeções animadas, que aparecem em Gato Preto, são dois recursos não exatamente teatrais incorporados na instância narrativa. São justamente esses elementos que possibilitam os sustos e surpresas, pois dão informações muito claras e diretas, de impacto, que contrastam com a suspensão misteriosa, pouco nítida, por que nos levam os demais elementos e as divagações da personagem. O off e a projeção, ao prezar pela clareza e a objetividade do áudio e da imagem, alcançam seus objetivos narrativos, mas o fazem às custas de uma incoerência, ferem uma poética de cena, à qual não se integram, e que parece ser a própria particularidade da Trilogia Poe.


Olho e Gato Preto não buscam representar a história narrada, mas a consciência narradora, paranoica, assombrada. Em Gato Preto, o tom sombrio e sinistro é dado na partida, estabelecido pela música, o cenário, o figurino e a luz. Caberia à personagem organizar um fluxo, um crescente das suas complicações psicológicas, o “pouco a pouco” de Poe, que ela mesma diz, mas não vive em cena. Para prejuízo da organicidade dramatúrgica, há, desde o princípio, um trânsito entre a segurança distante de quem narra e o sofrimento da experiência presente. Dinâmica que ao longo da peça tende ao desgaste.


Há ainda uma confusão de códigos na interpretação. Os bons momentos de construção corporal, com a absorção da personalidade felina, ou os momentos de declamação, com destaque para Álvares de Azevedo, e de potência vocal, se revezam com arroubos naturalistas que trazem muitos gestos comuns e vazios, o que leva também a voz a uma informalidade, ou pouco volume, que se desprende do universo lúgubre, misterioso e atormentado da peça.


Se não nos falha a memória, Olho está mais bem acabada. Já as potencialidades e os logros de Gato Preto merecem que se revisem os pontos fracos para que Poe se sinta, além de homenageado, justiçado.

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