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Plantas, memórias e liberdade

Duas performances na cidade nos convidam a diferentes exercícios da sensibilidade.

Interessante relação com objetos em Manjericão. Foto: Io Hardy.

Encerrou-se no último domingo a temporada de Não Posso Esqu cer, que contou com 20 apresentações em distintos espaços abertos da cidade. O trabalho performático tem direção de Valéria Braga com atuação de Maria Ângela de Ambrosis. Anteriormente, na terça-feira, pudemos assistir, no Teatro Laboratório da EMAC-UFG, ao exercício cênico Manjericão, com atuação de Iago Araújo e direção de Lina Reston.


Os dois trabalhos estão no campo da performance e ambos, o primeiro com apoio estatal, o segundo por força da vontade e da união, lograram levar a público uma linguagem que, por aqui, raramente vemos resultar num produto artístico, geralmente limitando-se aos processo de criação e experimentação em grupos e espaços de formação.


Não Posso Esqu cer existe desde 2016, é um trabalho amadurecido que está em sua segunda temporada na cidade, já tendo passado pelo teste do público e por algumas modificações. Já Manjericão teve sua estreia nessa semana, e tal como declara a diretora, é um work in progress. O exercício de Iago, ator estudante de Teatro, surge de provocações e interesses seus e da diretora despertados alguns anos atrás, que, sem recursos, só agora puderam materializar-se num trabalho que uniu voluntariamente diversos profissionais.


A opção pelos espaços abertos em que se apresenta a professora e atriz Maria Ângela, tem a ver com a ambientação de Não Posso Esqu cer, sempre realizada aos pés de uma gameleira. A frondosa e imponente árvore serve de cenário e simbologia para a trajetória de ações e movimentos executados pela atriz. O trânsito entre uma bacia e outra que compõem a cena remete a uma visitação de memórias, ecoando o título da obra.


Mas o ato de abandonar ou libertar-se de cada bacia e das restrições que essas impunham, junto à última ação da performer, que não tem fim, desmentem o ressentimento que a negativa do título poderia supor. Mulher e árvore se alinham na força e na verticalização desses corpos, mas se distinguem no contraste estabelecido entre a rigidez imóvel de uma e a fluidez, que segue em frente, da outra.


Não Posso Esqu cer faz um ótimo uso da lentidão dos movimentos, que junto ao figurino da performer e em interação com as bacias, criam imagens e deformidades corporais interessantes. O tecido da roupa e as imagens quase fixadas no tempo dão muita plasticidade às ações e abrem diálogo com as artes visuais. Ponderaríamos, talvez, a precisão e a inserção de certas ações, como retirar a blusa, para que essas não se explicitem como tal e não provoquem quebras no estado de contemplação que a encenação consegue provocar.

Não Posso Esqu cer em apresentação no Museu Antropológico - UFG. Foto: divulgação.

Das gameleiras ao manjericão, o que vem à tona são nossos sentidos. Dos espaços abertos da cidade, passamos a um ambiente fechado, preparado para uma imersão de estímulos. Ao entrar na sala, o aroma adocicado dos incensos é o primeiro deles. A plantinha do título, exalando seu cheiro inconfundível, vem em seguida pelas mãos do ator. Aqui, os gatilhos da memória são sensoriais: cheiros, texturas e sons.


Buscando ainda referências em mitologias indígenas e africanas, o trabalho vai construindo momentos cênicos. Há um inteligente equilíbrio entre o material de introspecção do artista, que reverbera em ações mais subjetivas, e os momentos lúdicos, que estabelecem contato mais direto e promovem a identificação do público. Tal dinâmica percorre toda a obra e é eficiente em recolocar e manter a atenção do espectador.


Não tendo o caráter plástico de Não Posso Esqucer, Manjericão investe em certa elaboração dramatúrgica. Faz um uso criativo e divertido de diversos objetos para narrar histórias, demonstrando consciência e cuidado com a presença de cada coisa em cena, o que não se nota tanto no cenário de Não Posso Esqu cer.


Há algo que se perde da expectativa inicial com os estímulos olfativos do incenso e do manjericão. Expectativa essa que também vem de fora, de antes da performance, pelo que se sabia dela através da divulgação. As sensibilidades que se abrem com os cheiros do início em algum momento são sufocadas por estímulos sonoros ou visuais. O universo dos cheiros e toques acaba sendo um ponto de partida, interessante, mas que arrefece ante a facilidade comunicativa da música e da fotografia.


Majericão é mais divertido, quiçá mais ingênuo. Não Posso Esqu cer é mais contundente, embora um tanto prolixo. As comparações são didáticas, divertidas, e aqui estão por força do estilo. Na verdade, não importam. Manjericão tem material, talvez mais que suficiente, para que, com os encantos mais sutis do cheiro e do sabor, venha a gozar da mesma pompa e circunstância que creditam às gameleiras.


Seja vendo uma mulher de meia idade roçar o rosto no chão sujo de uma praça da cidade ou um jovem que dança uma música “brega” banhado em manjericão, ambos os trabalhos nos levam àquele momento de incredulidade e encanto com a liberdade do artista.


Rafael Freitas

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