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Quantos mistérios entre o céu e a terra

Enquanto você voava, eu criava raízes explora o humano do íntimo ao universal


As sensações que nos tomam durante o espetáculo da Cia Dos a Deux e que se compartilham fora da sala com os demais espectadores têm múltiplas camadas. O encanto é impreciso, o fascínio é comovido e a admiração é perplexa. Os efeitos pedem qualificação pois as sensações são inquietas, interrogativas, não se acomodam no espectro cotidiano das nossas reações, mesmo às criações mais ousadas. E ainda, porque, no trabalho da companhia de a deux, nada tem sentido único. As ambiguidades se enredam e nada é somente o que parece, e mesmo aquilo que parece poderia não ser.


Enquanto você voava, eu criava raízes é fruto de um longo processo criativo iniciado por André Curti e Artur Luanda Ribeiro em isolamento social, nos tempos das restrições pandêmicas. Nesse trabalho, os artistas da companhia se colocam em cena de forma ainda mais pessoal do que no espetáculo anterior da companhia, Gritos. Suas fisicalidades estão mais presentes e se inserem de forma mais significativa na dramaturgia. Envolvidos por uma cenografia e uma iluminação que os distancia, recorta, camufla e distorce, os corpos são seres em crise, em sofrimento e mutação, aludindo a processos de cura e à busca da completude do ser; do vôo que liberta e eleva, mas não desterra nem desenraiza. A vida é processo, viver é transformação.


As leituras do espetáculo são diversas para aqueles que se empenham nessa tarefa. Para muitos, basta acolher no espírito sentidos que falam ao profundo de nosso ser, e não à nossa racionalidade. Além de mim, não são poucos os relatos daqueles que voltaram ao Teatro Sérgio Porto para rever o espetáculo, que encerrou sua terceira temporada no Rio de Janeiro. Esse retorno não se dá necessariamente pela busca do entendimento, mas pelo afã de colocar-se uma vez mais nesse lugar especial para o qual a obra consegue nos transportar.

Essa capacidade de remover nossos sentidos e nossa compreensão são potencialidades do trabalho em teatro gestual que a companhia desenvolve há mais de vinte anos. Mas aqui, essa intangibilidade do discurso se aprofunda à medida em que a abordagem de um tema recorrente, a constituição do sujeito, aponta para dimensões tanto mais profundas como complexas da nossa experiência. As imagens e a sonoridade do espetáculo nos elevam para um estado sensível em que somos afetados e provocados em nossa cosmovisão, em nossas percepções metafísicas e em nossa própria visão da vida como fenômeno, quiçá até de outras vidas.


André Curti e Artur Luanda Ribeiro assinam a direção, a dramaturgia e a cenografia, além da performance. Eles demonstram a criatividade e elegância pelas quais já são reconhecidos no uso de objetos comuns que, transformados em aparato estético, lhes servem tanto à criação de imagens fantásticas, oníricas, quanto ao apoio e manipulação do corpo e dos movimentos, os quais nos iludem, confundem e impressionam. Luanda também é o responsável pela iluminação, que reforça o caráter onírico e se relaciona de forma inteligente e delicada com o cenário e os corpos em cena.


A junção dos elementos é elaborada com sensibilidade e fineza, de modo que se criam sombras, texturas e deformações das formas humanas num fluxo de imagem e movimento em que nada fica pelo caminho, tudo se harmoniza e colabora para a composição de um clima suspensivo, misterioso e catártico. Destacável o uso da penumbra, da cena em baixa luz, que desacomoda nossa visão e atiça a imaginação. A essa afluência de imagens somam-se criações videográficas, trabalho de Laura Fragoso, que projeta novas camadas, possibilidades e perguntas sobre a cena. Todo o conjunto visual é embalado pela música de Federico Puppi, que cria a atmosfera precisa para que o espetáculo assente, mantendo nossa percepção num estado de contemplação e abertura ao mistério, ao sobre-humano.


O trabalho da Cia Dos a Deux nos gratifica e inspira. Dá-nos o prazer posterior de conversar com curiosidade e deslumbre sobre a obra, de compartilhar nossas sensações e percepções, de se surpreender com as leituras inevitavelmente diversas. Alienígena, alma, amor... são das coisas que surgem nos comentários, para iniciar em ordem alfabética. A riqueza de sentidos é reflexo da dedicação e do domínio das temáticas, do apuro técnico e de uma evidente atenção aos detalhes, pelo que se agradece aos artistas não apenas pelo espetáculo, mas pelo exemplo que dão a todos nós, de profissionalismo e excelência.

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