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Se não há teatro, há dança

Atualizado: 27 de Jul de 2018

Espetáculos espanhóis movimentaram o CCUFG no fim de semana dentro da programação do Manga de Vento.

Open Wound de Laura Aris. Foto de Takao Komaru.

A Manga de Vento - Mostra Expandida de Dança está em sua terceira edição e segue trazendo a Goiânia obras e artistas que, sem um olhar curatorial antenado e corajoso, dificilmente dariam os ares por aqui. Desde 2015, a mostra já trouxe nomes renomados da dança internacional, além daqueles trabalhos que viralizam e ninguém quer deixar de ver, como o Corpo Sobre Tela de Marcos Abranches. A norma, porém, é que a muitos a distância dos grandes centros obrigue ao contento com o gostinho da descrição alheia. Esse tem sido o grande mérito da Manga de Vento: nos provoca a gratidão de poder ver algo que, sabemos, é um privilégio.


A atual edição mantém o fôlego e não desaponta. Teve sua abertura com os espetáculos de Hugo Rodas com a Agrupação Teatral Amacaca, de Brasília, em maio. Em temporada de três dias apresentaram as peças Punaré e Baraúna, Ensaio Geral e Adubo, cuja crítica pode ser lida aqui. Agora em julho, mês que se anuncia fraco para o Teatro na cidade -à exceção do Aldeia Sesc de Arte - a mostra se dedica a talentos espanhóis da dança contemporânea. No último fim de semana se apresentaram três artistas, e a homenageada da mostra, Carmem Werner, se apresenta no dia 28 com De Parte de Ella.


Na sexta, a bailarina Laura Aris abria as apresentações com o solo Open Wound e abria também as portas externas do teatro do CCUFG para avançar pelo público que esperava, arrastando-se pelo chão e arrastando consigo, ao ar livre, as vísceras, emocionais e cênicas, que pautavam sua dança. Trazia na boca metros e metros de uma fita vermelha cuja textura, peso e cor não poderiam ser melhor materialização da “ferida aberta” do título da obra. A agonia, que ao menos ver causava, de ter que prender nos dentes tal quantidade de coisas estabelecia a tensão que a evolução da performance, ao transformar e ressiguinificar o objeto, tratava de afrouxar. Open Wound e também o trabalho que se seguia tocavam, a seus modos, o tema da superação/libertação.


Se Laura Aris trazia na boca, à mostra, colorido e sob a luz as questões do seu eu poético em movimento, Álvaro Esteban as tem internalizadas em Antípodas. Assim, enquanto ela ocupa e se espalha pelos espaços, desde afora e por todo o palco, em movimentos amplos, que evidenciam os desafios de lidar com aquilo que arrastamos conosco, Álvaro traça percursos mais contidos, de movimentos e energias condensados, latentes, cuja ocupação do espaço vai na mesma frequência da iluminação de seu corpo em cena: fraca, pulsante, valorizando o detalhe e isolando o ser poético do mundo.


Sentado e de costas para o público, sob a luz, Álvaro não nos dá a ver mais que suas costas, a qual, em ondulações de ossos e músculos, revelam a energia que pulsa num corpo oprimido, em busca de vazão e escape contra o tolhimento externo e contra a escuridão que ameaça tomar espaço. As simetrias do corpo, em seus detalhes, reverberam imagens e, não via quem não conhecia, as pranchas de Rorschach se desenhando desde sua coluna. Aqui a tensão não relaxa, só aumenta e, com o tempo, obriga aquele corpo recolhido aos saltos, aos planos médios e altos e a movimentos explosivos. Amplitude ainda contida, sem aspirações de liberdade, auxiliada pela música e a luz, muito eficientes, na criação de uma atmosfera de apreensão e horror.

Cualquier Mañana, con Laura Aris e Álvaro Esteban, Foto de Elias Aguirre.

Após os solos, os dois artistas se apresentaram com o duo Cualquier Mañana. Se bem as três obras não são uma unidade, podemos ver uma evolução que vai das lutas individuais nos solos para as questões, igualmente íntimas e de superação, que surgem da relação com o outro no duo. A obra mescla momentos de improviso a dois e coreografias de muitos detalhes e muito singelas. Em Cualquier Mañana as leituras são mais evidentes, facilitadas pela relação de alteridade, cujos dramas e conflitos também favorecem a identificação e a emoção do espectador. No entanto, a coreografia não se deixa fluir pelos caminhos fáceis que se abrem com essa identificação, introduzindo a todo instante quebras de fluxo que, a um tempo, desviam a identificação emocionada e renovam o interesse pelo movimento.

Perro, de Daniel Abreu. Foto: 24Ecuador.

No sábado, o dançarino também espanhol, Daniel Abreu apresentou-se com o trabalho Perro. Com cativante domínio cênico, Daniel se demonstra também um ator de muita presença e consegue conduzir com tranquilidade todo o espetáculo, que passeia por momentos às vezes muito distintos uns dos outros. O jogo de máscaras do início, feito com mãos e expressão, o fazem um solo inteligente e criativo; o jogo da nudez, a um tempo cômico e triste, o fazem engraçado e provocador; e a dança dos braços, ao final, o titulam um espetáculo sério e consciente. Todas as obras, dos dois dias, provocam muito com muito pouco, tecnicamente falando. A orquestração dos três elementos principais das obras, movimento, luz e música, é impecável, organizando com consciência e objetividade as sensações, atmosferas e emoções. Os trabalhos são uma aula de composição cênica que nos fazem atentar para uma lição importante muitas vezes esquecida no teatro: deus está nos detalhes.

Rafael Freitas

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