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Sina de separação

Atualizado: 27 de Jul de 2018

Adaptação teatral de conto de Guimarães Rosa tem lindas imagens e belo texto, mas, tal como as personagens, ambos não formam um só.

As personagens Sorôco, sua mãe e sua filha. Foto: Sidney Dutra.

O Grupo Arte e Fatos encerrou a circulação da peça Os Avessos com uma apresentação em Goiânia, no Teatro Sesc Centro. O espetáculo já se apresentou em nove cidades de Goiás e Minas Gerais - todas ponto de passagem da antiga Estrada de Ferro Goiás. O inusitado se deve ao texto que dá origem à obra, o conto Sorôco, sua mãe e sua filha de João Guimarães Rosa, em que a história da separação desses personagens se passa numa estação ferroviária. A direção do espetáculo e a adaptação do conto aos palcos são de Danilo Alencar.


Os Avessos, cujo nome ainda nos é misterioso, oferece imagens bonitas e cenas de grande apelo visual e sonoro. A trilha é um componente chave do espetáculo, delineando as emoções das cenas e dando peso poético às passagens da história. Isso, mais que uma decisão, é uma necessidade da montagem, cuja adaptação do conto se estrutura em dois eixos: narração e ilustração. Como instância narrativa, está em cena um velho corcunda, de sotaque estrangeiro, interpretado por Leopoldo Rodriguez, que nos dá o texto de Guimarães Rosa, aparentemente na íntegra. Os demais atores, ora compartilham a narração, ora, com as máscaras que os identificam, são os personagens da história, que, sem fala nem ação dramática, ilustram de forma poética os sentidos do que nos conta o narrador.


Assim engendrada, a peça resulta monótona no seu miolo, apesar do começo cheio de expectativa e dos momentos finais em que a beleza do texto se sobressai. Quando toda informação vem do texto falado, por um único personagem, é muito fácil perder-se, perder o fio da meada, e perder o interesse. O elenco está muito bem. Rita Alves, Thaise Monteiro e André Larô, que interpretam a Sorôco, sua mãe e sua filha, poderiam ser mais bem aproveitados, mesmo que na instância narrativa, estabelecendo jogo com Leopoldo. Isso chega a acontecer brevemente e se mostra eficiente em dar dinamismo e vida à encenação, que na maior parte do tempo é refém de Guimarães Rosa.


Visualmente, o espetáculo se filia a essa tradição estética muito presente no teatro de rua, que busca nas tradições populares, religiosas e sertanejas os elementos para sua composição artística. Assim, temos sobre o palco o predomínio dos tons pastéis, nas máscaras, nas caixas de madeira e nos troncos de árvore do cenário; uma iluminação âmbar, figurinos e objetos de cena em tons ocres e envelhecidos, com fitinhas coloridas e penduricalhos de toda sorte de objetos que remetam ao universo popular/sertanejo. Vemos também um pequeno altar para nossa senhora. Todo um universo que conhecemos e identificamos bem. De contrastante, alguns guarda-chuvas que, além de compor o cenário, estão numa das cenas mais interessantes.


Essa profusão de objetos e elementos cênicos primeiro aponta para o vício e o desgaste dos recursos dessa tradição de teatro, já bem estabelecida e em muitos casos carente de inovação. Tal se demonstra com o altar de nossa senhora, cuja presença só se explica pela tradição que ele tem nesse universo, não pelo uso que se faz dele ou por sua relevância na obra. Depois, o número de objetos e referências aponta para certos elementos, nunca referidos, que se bem devem ter feito parte do processo e ajudaram a compor o espetáculo, permanecem na montagem sem que seus sentidos se comuniquem com o espectador.


Se Os Avessos nos propõe tais discussões e nos permite questionar a concepção ilustrativa da adaptação do conto, vale dizer que não o faz por mérito único de suas fragilidades, mas por remeter a uma tendência, ou safra de espetáculos, que confia muito no apelo dessa tradição estética e, não raro, negligencia a criação dramatúrgica. Os Avessos renuncia a dramatizar a história narrada e por isso perde intensidade, mas a opção por um espetáculo de imagens e cenas poéticas é bem executada. A peça cria momentos de beleza cênica e logra valorizar a poesia de Guimarães Rosa.

Rafael Freitas

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