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Um outsider na História

Atualizado: 20 de Set de 2018

Em A descoberta das Américas, reinventa-se o encontro entre dois povos.

Júlio Adrião em partitura corpóreo-vocal. O ator é o cenário. Foto: divulgação.

Johan Padan não é espanhol nem índio, mas é desde seu ponto de vista que vamos ser apresentados à história do encontro desses povos. Johan é um italiano fugido da inquisição em seu país e que acaba na frota de Cristovão Colombo fugindo da perseguição aos judeus em terras espanholas. A personagem é, para todos os efeitos e em qualquer contexto, um outsider; eternamente em fuga, sempre frustrado diante de qualquer possibilidade de assentamento. Impedido de parar, correndo a todo instante e viajando sempre, seja pelas matas virgens do novo mundo ou pelas extensas águas atlânticas, essa pulsão do personagem encontra corpo perfeito na energia e no fôlego de Julio Adrião.


Além de plena e vigorosamente encarnado pelo grande ator, que levou o prêmio Shell em 2005 por esse trabalho, o eterno mover-se é, também, figurativo desse impulso explorador do homem que levou à expansão marítima e à efetiva “descoberta” das Américas. Tal dinamismo, aliado à versatilidade de Julio, dá conta de transmitir a efusividade e o deslumbre do que deve ser a situação de ver-se, de um lado e do outro, diante de uma civilização desconhecida e tão diferente da sua. É justamente por não ser índio, mas tampouco integrar-se aos espanhóis, que Johan estabelece para a peça um ponto de vista que não demoniza nem vitimiza nenhum dos lados. Embora saibamos que a história desse encontro é um massacre, que a peça não deixa de acusar, o olhar é externo e o relato descritivo, construído com muito humor e dando-se inclusive o direito de imaginar outra versão da História.


Julio nos impressiona pelo seu desempenho. Durante uma hora e meia de espetáculo, executa as mais variadas e interessantes partituras corporais, imita diversos sons, corre pra lá, volta pra cá, expande e contrai, sem demonstrar cansaço. Não há cenário, o figurino é muito básico, a iluminação é geral, não há trilha, efeitos sonoros, nem objetos de cena. Nada além de um ator, que com seu corpo e voz simula navios, matas, cavalos, batalhas e festas; que aproveita o suor do corpo para modificar os cabelos e a aparência segundo cada cena; e que faz tudo com simpatia e cumplicidade. A direção de Alessandra Vannucci mantém o espetáculo, que é longo, em equilíbrio. Embora em algum ponto sinta-se que o humor sobre as desventuras como prisioneiro dos índios se esgotou e perdeu-se o olhar crítico, logo se renovam os motivos, e também nossa atenção.


A peça foi adaptada por Julio Adrião e Alessandra Vannucci a partir do original do italiano Dario Fo. A descoberta das Américas está em circulação há 13 anos e já esteve em Goiânia algumas vezes desde 2006. Pelo humor acessível e pela energia contagiante é dessas peças que cria um público fiel, sempre havendo aqueles que vão assistir mais uma vez. Tomando elementos do teatro popular, de rua e da commedia dell’arte, em que Julio se especializou na Italia, a peça tem ritmo ágil e um frescor hipnotizante. Além disso, alcança o humor de forma inteligente e muito teatral, pois a graça surge no tempo, na repetição, no gesto, no som. A descoberta destaca-se com um humor que passa a sensação de pureza, sem apelar à confissão do artifício teatral para rir de si mesma nem aos esquemas conhecidos do stand-up.

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