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Visões românticas no teatro goiano

Atualizado: 16 de Jun de 2018

Tanto pelos elementos internos quanto pela história de seus criadores, Matilde e a bala perdida chama a atenção para nossos idealismos e afetações.


Luzia Melo como Matilde em texto de Almir Amorim, seu esposo.

Matilde e a bala perdida é um evento teatral de começos e recomeços. Bruno Peixoto, de sólida e destacada carreira de ator, estreia na direção. Além disso, ele encara o desafio de reavivar duas carreiras: a do dramaturgo Almir Amorim, num jejum de décadas, e a da atriz Luzia Melo, longe dos palcos há 20 anos.


O clima é de confraternização na sala do Teatro SESI. A peça abre a Semana de Dramaturgia Goiana, e a velha guarda do teatro local marca presença, prestigiando os velhos conhecidos. O evento em si é um logro a ser celebrado. Nas noites seguintes apresentam-se mais dois textos inéditos de autores goianos, selecionados a partir do curso de dramaturgia promovido pelo SESI em 2017 com o diretor Roberto Alvim (Club Noir – SP).


Estamos entre pares e conhecidos, em muitos casos, entre amigos, e ainda que um ônibus traga jovens de baixa renda para ver o espetáculo, é difícil não pensar na velha história de “a cena goiana está fechada em si mesma” ou “somente a classe se assiste”. Teríamos nisso um problema? Talvez não no âmbito da produção, em que provavelmente os colegas se unem e se auxiliam, ou não?. Já no âmbito da recepção, sim, parece que temos um problema.

Bruno Peixoto demonstra consciência e aponta que a obra é um work in progress, pelo quê se beneficiaria tanto mais das contribuições críticas e sinceras do seu público.

Esse público é condescendente; em parte, emocionalmente afetado; e, para muitos, já satisfaz o simples fato de que se faça e de que eles consumam (algum) teatro. Não são raras as vezes em que, numa sala, ficamos com a impressão, após o espetáculo, de que o maior motivo de prazer ou satisfação é o evento social, não a obra em si. Idealização ingênua do fazer teatral pouco afeita à avaliação dos seus méritos artísticos.


Quanto a Matilde e a bala perdida, suas falhas não se devem à endogamia do teatro goiano, mas o prejuízo se fará ver na ausência de uma recepção crítica que provoque e questione os artistas no seguimento que darão ao trabalho. Bruno Peixoto demonstra consciência e aponta que a obra é um work in progress, pelo quê se beneficiaria tanto mais das contribuições críticas e sinceras do seu público.


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Mas afinal, quais são e a que se devem, então, os problemas da peça? Comecemos dizendo que o tempo para montagem foi, segundo o diretor, de um mês e meio. Isso dito, indicador recolhido, prossigamos.


Matilde e a bala perdida não é o que poderia ser, e que esperamos que venha a se tornar. O texto tem humor, tem sensibilidade, e parece capaz de entregar um retrato singelo e tocante de uma consciência em frangalhos, incapaz de organizar e dar sentido aos fatos e tristezas que a conduziram à loucura e à morte solitária.


Porém, a esquizofrenia de Matilde, que já impregna o texto (seu monólogo), também se sobrepõe à encenação, de forma que a construção da personagem e de sua narrativa fica prejudicada. Nesse sentido, o curtíssimo tempo de montagem explica muita coisa.


Luzia não tem intimidade com o texto; embora emocionalmente envolvida, faltou-lhe tempo para um distanciamento que desse mais segurança rítmica e maior cuidado com ênfases e inflexões. Tampouco, em seu retorno aos palcos, apresenta familiaridade com esse teatro artesanal, de manipulação de objetos e cenários que se constroem em cena, no qual Bruno Peixoto tem experiente desenvoltura.


Há certas referências à Beckett que foram assumidas pela encenação e se notam: no cenário, com escadas, barris e entulhos; nos reiterados esquecimentos de Matilde: “eu tenho que fazer alguma coisa”; e na própria ação estancada.


No entanto, as frequentes intervenções sonoras e as projeções de personagens do nosso mundo político, social e artístico provoca um saturamento de recursos que impede o surgimento de uma atmosfera de suspensão, tão cara a Beckett e, talvez, ao texto de Almir Amorim. Esforça-se por mostrar o absurdo, não deixando que ele aflore naturalmente na encenação. Mesmo o humor, quando aparece, não se deve à situação cênica, mas a falas mais apelativas da personagem.


Matilde e a bala perdida cria três linhas de condução do espetáculo: a das ações da personagem em cena; a linha discursiva do seu fluxo de consciência; e a narrativa que deveria transparecer desse fluxo. Infelizmente, nenhuma alcança clareza. A opressão, as violências e os infortúnios que se abatem sobre Matilde, pelo modo confuso em que aparecem, não constroem uma personagem forte, e Matilde adquire traços abobalhados com alguns rompantes de rebeldia. Nem mesmo a morte, que não encerra o texto, a transforma. Matilde morta é idêntica a Matilde viva. Nenhuma nova consciência surge relativizando sua relação com o mundo. A morte apenas torna real o paraíso imaginário que criara para si. Romanticamente, morrer é libertar-se.

Rafael Freitas

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