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Hamlet, um espelho

Atualizado: 24 de jun. de 2018

Em Complexo de Hamlet, Luciano Caldas se depara com muitas perguntas. Algumas respostas ainda estão por chegar.


Luciano Caldas como um Hamlet em retalhos. Foto: divulgação.

Depois de uma temporada no Rio de Janeiro e duas apresentações em maio, em Goiânia e Inhumas, o espetáculo Complexo de Hamlet teve estreia oficial no Teatro Sesc Centro. O trabalho foi desenvolvido durante uma residência do ator Luciano Caldas com a diretora Celina Sodré, no Instituto Stanislavsky, no Rio. Influenciado pelo contato com Jerzy Grotowski, o trabalho da diretora é centrado no ator, retira dele as disposições e as vivências que fornecem a matéria-prima do processo de composição cênica e dramatúrgica.


Para Luciano, o contato com esse teatro representou um divisor de águas. Seus 20 anos de carreira iniciam, como para a maioria dos atores goianos de larga estrada, de forma amadora, em Rio Verde, a partir do impulso e da vontade de fazer. A profissionalização chegaria depois, assim como lhe acaba de chegar, segundo declara, com a formação no curso de Produção Cênica do Basileu França, a estruturação e o planejamento dos trabalhos e da carreira. Estamos diante de um ator em descoberta, reinventando-se, e Hamlet não lhe poderia ser mais apropriado nesse momento.


Toda a composição do espetáculo, o cenário, o uso do espaço, as movimentações no palco e a gestualidade da personagem surgem a partir das memórias e experiências do ator, até o figurino foi elaborado a partir de trajes que ele já possuía. Em cima de todo esse material é que se acopla o texto, mas a fragilidade está justamente na cola, que não une bem as duas partes. Toda a encenação, rica na diversidade de uso dos elementos cênicos, e no aproveitamento simbólico de cada coisa, não absorveu o espírito de Hamlet e tem caráter mais afirmativo que reflexivo.


Embora não deixe de passar por indagações, questionamentos e investigações do espírito, da memória e do ofício, a determinação e a vontade com que Luciano vive seu processo de reinvenção não refletem a hesitação e a dúvida profundas que acometem ao príncipe dinamarquês. Talvez por isso, a concepção do espetáculo avança respostas cujas perguntas carecem de maturação, ou que seriam mais bem aproveitadas se lançadas ao espectador.


A obra se assume aberta às interpretações individuais ao optar por essa composição dialética entre texto e universo simbólico do ator. A síntese está a cargo do espectador. Porém, se o texto se sujeita à encenação, faltou que esta se sujeitasse mais ao texto. De modo que restasse para o público mais das questões hamletianas assim como restam das questões cênicas. De todo modo, Luciano Caldas empresta ao espetáculo todo o frescor da sua curiosidade, e a pulsão de sua determinação.


A montagem é feita de recortes do texto de Shakespeare, cuja seleção é muito feliz em trazer os momentos chaves da história, de maior apelo dramático e, portanto, mais capazes de prender a atenção do espectador. Além disso, há uma especial valorização da palavra; o ritmo da fala é lento, pausado; e se isso nos dá tempo de compreender e acompanhar as divagações de Hamlet, tem também o mérito de estabelecer uma atmosfera particular, uma suspensão temporal onde, da inquietude ao sono, as sensações são diversas.


Rafael Freitas

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