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Um Hamlet sem hesitar

Na livre adaptação do texto de Shakespeare, cia Magiluth traz mais certezas que questionamentos.

#CenaContemporânea – DF

Cinco atores ironizam a felicidade e a vida boa da classe alta. Foto: Bruna Valença.

O Cena Contemporânea é o maior festival internacional de Teatro do Centro Oeste, e o quinto maior do Brasil. Ele chega esse ano à sua 19ª edição, com 21 anos de história. Em 2018, o festival se posiciona de forma veemente diante do nosso conturbado momento político e também convida o público a fazê-lo com o lema da campanha #DeQuaLadoVocêEstá. Aponta as “ameaças recorrentes por parte de extremistas políticos” ao processo eleitoral e “os processos que se instauraram no país nos últimos tempos” para colocar-se como “ponto de inflexão dos debates que tangem a liberdade em todas suas formas e sentidos”. Um rebuscamento, ora vazio, que trata de sutilizar um posicionamento político que qualquer brasileiro minimamente informado entende muito bem.


A inclinação política e o eixo curatorial de um festival obviamente vão definir os temas, a cara e o tom das obras, mas o próprio bom senso não se oporia à abordagem de temas como democracia, igualdade de direitos, tolerância, violência e preconceito, que são dos mais profícuos temas nas artes em geral. Além disso, as obras têm sempre a chance de, mesmo compartilhando ideologias, expressar-se de forma mais original e elevada do que faz o discurso de um festival. Dinamarca, da Cia Magiluth, de Pernambuco, infelizmente não o faz. Ler a apresentação do Cena Contemporânea 2018 depois de assistir à peça se torna, assim, esclarecedor. Sabemos de que lado estamos todos.


Dinamarca é uma adaptação de Hamlet, mas pouco traz da trama shakespeariana, cujos pontos principais nos são contados, em inglês, no início do espetáculo. Daí, desobrigados de construir no palco a conhecida narrativa, propõe-se situação parecida a uma festa de casamento ou uma grande reunião familiar. Não há personagens claros nem enredo tangível. De Hamlet restam referências, a exemplo do que consideramos um feliz investimento na elaboração da aparente loucura e isolamento da personagem que remete ao príncipe do original. Essa tensão, com um personagem misterioso e destoante da energia geral, sempre aos cantos e na penumbra, é um dos momentos que chamam a atenção no espetáculo. Há também um aceno ao drama de Ofélia que ganha contornos líricos ao abordar o que poderia ser um fato real de violência contra uma jovem.


De resto, as cenas são uma sucessão de conflitos, monólogos e provocações que buscam, pela ironia, transformar a festa e as personagens numa alegoria das classes abastadas, especificamente as brasileiras. A Dinamarca da peça é uma bolha de alienação e complexos, seus habitantes aparentemente culpados de todas as nossas mazelas e detentores exclusivos dos valores questionáveis que provocam o sofrimento da humilde população brasileira. A impressão de ingenuidade aumenta na medida em que a ironia não funciona, pois tenta-se construí-la em cima do que foi entregue de início e que é a própria concepção da peça: a tosca associação entre a riqueza do país Dinamarca com a “elite” brasileira. Fracassa a ironia e a alegoria deixa ver-se como crença.


Difícil saber o que provoca o quê ou como as duas coisas se relacionam, mas a ingenuidade da concepção textual vem acompanhada de uma instabilidade da encenação. Esta é ambiciosa, busca efeitos através de variados e numerosos objetos, do uso de lâmpadas incomuns e de efeitos sonoros, experimentações que às vezes resultam criativas e funcionais. Tais recursos, no entanto, não salvam o espetáculo do caos ruidoso e sem sentido em que se transforma a dita festa. Impossível não recordar-se do espetáculo Nós, do grupo Galpão, cuja crítica você pode ler aqui, e que parece definitivamente uma inspiração para o trabalho da Cia Magiluth. A agitação dos atores, recolocando, a exaustão, objetos sobre uma mesa que não tarda a virar de novo, é desconexa e desmotivada. Nesse momento, o texto fala sabe-se lá do quê, e as ações são vazias e imprecisas: movem-se coisas para demonstrar a agitação mesma. Enquanto em Nós o caos e a repetição atrelam-se ao texto e resultam, a dado tempo, numa sopa que o público pode comer, em Dinamarca o único porvir da desordem é a bandeja barulhenta que virá ao chão mais uma vez para a irritação dos espectadores.


Ao pensar numa companhia de Pernambuco confessamos que nasce a expectativa, fruto do contato com o cinema da região mais do que com qualquer outra coisa, por certo despojamento e atrevimento. É engraçado ver que isso está presente em Dinamarca, talvez não de forma muito genuína, o que pode ser a razão por que algo soa artificial. O despojamento é absoluto, tem-se ou não. A Cia Magiluth busca ao mesmo tempo uma identidade e uma peça despojadas, de ares pós-dramáticos e bem humorada. Faltou, no entanto, pulso do diretor Pedro Wagner para dosar a liberdade dos atores e encaminhar de forma mais objetiva, com propósito, as criações coletivas. Algumas cenas são como ilhas, além de destoantes, parecem um aproveitamento desnecessário de exercícios de ensaio.


Em face das reações duvidosas da plateia ante as intenções irônicas das primeiras cenas e diante do esvaziamento crítico que a visão dicotômica e classista impõe ao espetáculo, os momentos finais se encaminham apelando a um humor fácil, que abusa do ridículo e da gritaria. Mesmo nos últimos suspiros de seriedade, era de se esperar mais elaboração. Ver um homem ao microfone gritando a outro que ele não deve opinar sobre questões do feminino por ser homem e não saber o que é ser mulher é o mesmo que ler qualquer textão de Facebook em discussões sobre machismo/feminismo. Inclusive os gritos fazendo justiça à caixa alta.

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